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A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

30.09.21

O CASO DO SACA-ROLHAS


João Brito

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Antes de iniciar a narrativa, convém avisar os eventuais leitores e leitoras mais distraídos de que este caso nada tem a ver com a mutilação sexual do cronista Carlos Castro, ocorrida há uns anos, em que o objecto do crime também foi um saca-rolhas. Aqui fica o esclarecimento e prossigamos, então:

A vítima estava de barriga para cima e tinha um buraco redondo no meio da testa: perfeito; sem mácula; sem pinta de sangue. Um distinto buraco de bala. Contudo, como não podia deixar de o fazer na circunstância, o inspector dos homicídios, homem muito batido nestas andanças, procedeu à avaliação do diâmetro do orifício onde a bala penetrara e deduziu sem pestanejar: «Calibre de 6.35 mm.»
Um minuto depois, surgiu outro agente e informou: «Já foi encontrada a arma do crime. É um furador; estava no bolso esquerdo das calças do cadáver. O inspector dos homicídios mirou e remirou o utensílio e fez um exercício de raciocínio lento: «Estou mais inclinado para lhe chamar um saca-rolhas, hã, q'é que acham?»
Como não houve quem contrariasse a sua suposição, baseada certamente em largos anos de experiência, intuição e um faro fora do comum, ou não fosse ele o inspector dos homicídios - não esqueçamos - , prosseguiu: «Bom, então tomem nota: o homicida é um gajo destro e quis tomar-nos por parvos ao guardar o saca-rolhas no bolso esquerdo das calças do cadáver. Para além disso tentou, debalde, confundir-nos com o velho truque do furador de balde. Ademais o crime foi perpetrado à queima-rolha, senão não tinha aberto um buraco tão pequeno e perfeito!»
Chamou os restantes polícias e ordenou: «Ninguém sai daqui! Mandem reunir os suspeitos do costume!»
Depois de reunidos os suspeitos do costume, notou-se a falta de um: «Então, por que razão falta aqui um suspeito do costume?» - perguntou o inspector dos homicídios. O principal suspeito respondeu de pronto: «Não veio porque o Sporting joga, hoje, com o Benfica e eu dispensei-o para ir ver o jogo, senhor inspector; ele sofre muito da bola!»
«Bem, dispensa-se esse e vamos prosseguir!» - disse o inspector dos homicídios.
Alinhados por alturas, o principal suspeito apontou as duas suspeitas que o precediam: uma criada de quarto e a sua esposa (a esposa da criada de quarto, entenda-se!) e declarou com alguma ironia: «Como vê, senhor inspector, estou acima das suspeitas; aliás, de qualquer suspeita!»
Discretamente, o inspector dos homicídios puxou de um bloco de notas e começou o interrogatório: «Alguém cometeu, aqui, um crime de homicídio muito grave na ex-pessoa deste cadáver que jaz no chão sem pinta de sangue! Espero não ser obrigado a arrancar-vos a confissão a saca-rolhas! Nem mesmo o senhor, como principal suspeito, está isento. Daí estar aqui presente como principal suspeito!»
Imediatamente, as duas suspeitas que precediam o principal suspeito reclamaram, com veemência, a sua inocência alegando que eram canhotas.
Um dos agentes sugeriu: «Não podemos afastar a hipótese do homicida ser o tipo que foi dispensado para ir ver a bola, senhor inspector!»
«Então, a seguir ao encontro, ligas para o telemóvel do gajo para ele comparecer com urgência no interrogatório!» - respondeu o inspector dos homicídios.
Quando se preparavam para intervalar e assistir ao encontro pela televisão, por proposta do principal suspeito - um benfiquista dos quatro costados - , eis que surgiu o médico forense, mais branco do que a bata branca que trazia vestida: «O morto está vivo! O morto está vivo, ele espirrou!»
O principal suspeito pôs imediatamente o braço no ar e disse: «Fui eu, senhor inspector, não tenho como negar!»
«Foi o senhor o quê, homem de Deus, desembuche?!» - questionou o inspector dos homicídios.
«Fui eu que matei o cadáver que jaz no chão, acabado de ressuscitar, senhor inspector!» - Respondeu o principal suspeito.
«Vamos lá esclarecer a cena do crime. Faça favor de relatar tudo direitinho e sem pontuação!» - ordenou o inspector dos homicídios.
«Foi sem querer senhor inspector havia muito fumo na sala e o exaustor tem estado avariado daí que tínhamos de andar às apalpadelas inclusive até levei um sopapo da senhora da limpeza que a seguir insistiu que a apalpasse novamente mas o que eu queria mesmo era a rolha por isso andava à procura dela e confundi a cabeça do cadáver com a rolha foi assim que desse modo o matei depois de morto inadvertidamente e enfim foi a tragédia que se consumou aqui senhor inspector» - declarou o principal suspeito, ofegante.
«Então vou acusá-lo, primeiro, de assédio sexual na pessoa da empregada da limpeza, seguido de homicídio por negligência grosseira, pois devia ter tido o cuidado de se certificar que era, efectivamente, a rolha que estava a sacar, não obstante o fumo envolvente!» - concluiu o inspector dos homicídios.
«Por enquanto só pode acusá-lo de assédio sexual, inspector. O cadáver está vivo! Acabei de o restituir à vida!» - contrariou o médico forense, negro como um tição, agora, com a cor que Deus lhe deu, passado o choque com o insólito acontecimento.
O inspector dos homicídios perguntou ao médico forense qual o método que tinha utilizado para o reanimar: «Tornei a rolhá-lo.» - explicou o médico forense.
«Então temos aqui, para além do acto repreensível de assédio sexual, um caso de duplo homicídio: negligência grosseira e um homicídio frustrado!» - sentenciou o inspector dos homicídios.
Restituído à vida, o cadáver com semblante preocupado, aproximou-se e disse: «Doutor, o senhor esqueceu-se de me lacrar; assim a rolha vai saltar de certezinha!»
«Xi, grande bronca! Nem me lembrei que você é alérgico ao pólen, pá!» - desculpou-se o médico forense.
No entretanto, o inspector dos homicídios lembrou-se de algo que, a julgar pela sua expressão facial, devia ser extremamente importante. Perguntou ao criminoso que deixara de ser o principal suspeito: «O senhor tem licença de porte de saca-rolhas?»
«Não tenho, não, senhor inspector!» - respondeu o homicida que tinha deixado de ser o principal suspeito, pálido de morte. «Cacei-o! Afinal, você só estava autorizado a sacar caricas! Faça favor de abrir uma garrafa de cerveja antes de o algemar, vamos lá! O tempo urge, ainda não jantei, caraças!» - ordenou-lhe o inspector dos homicídios, impaciente e com as paredes do estômago coladas. Numa fracção de segundo, o facínora que tinha deixado de ser o principal suspeito, deu um salto para trás das costas e apoderou-se da arma do crime: «Alto lá, aqui ninguém se mexe ou faço-lhe um furo na testa!»
De saca-rolhas em riste fugiu dali e, quando corria para a saída que nem um criminoso que deixara de ser o principal suspeito, ouviu-se um espirro violento seguido de um estampido abafado, tipo um tiro através de uma almofada (ou travesseiro). A rolha ainda fez ricochete numa pedra da calçada, mas já era tarde, pois o inspector dos homicídios queria aquilo resolvido a tempo de não ter que aquecer o jantar no micro-ondas e, como já estava cansado desta estória sem pés nem cabeça, rematou o final às três pancadas:
Atingido na barriga de uma perna, tanto se dá que tivesse sido na direita ou esquerda, o autor do crime que deixara de ser o principal suspeito, ainda teve tempo para gritar: «mãezinha!»
«Foi a rolha que o matou!» - confirmou o médico forense.
«Está morto?» - perguntou o inspector dos homicídios.
«Morto e bem morto!» - reconfirmou o médico forense.
«Bom, então, levante-se imediatamente um auto ao cadáver ressuscitado, por crime de homicídio involuntário, e prenda-se imediatamente, com efeito retroactivo e sem direito a recurso!» - ordenou o inspector dos homicídios.

30.09.21

TRISTE FADO, O DOS POETAS


João Brito

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Após longa e forçada ausência da Pátria, Fernando resolve retornar a Lisboa na companhia dos manos.

Encorajado por uma anarco-sindicalista irlandesa, de nome Óscar, decide introduzir o modernismo em Portugal e em boa hora o faz porque, graças a esta inovação cultural, obtém uma tença vitalícia do "Presidente-Rei", Sidónio Pais, e o direito inalienável a comer uma sopinha até ao final dos seus dias.
Estabelece-se, então, no Largo do Intendente como astrólogo e tradutor, no que se aborrece supinamente, pois não está vocacionado para isso.
Urge escrever, mas está difícil encontrar a veia poética devido a uma flebite crónica de que padece.
Álvaro, para o abstrair do desassossego em que vive, escreve-lhe cartas de amor a Ophélia Barbosa que Fernando, sempre muito reservado, ama em segredo.
Anos mais tarde e após a tentativa da relação amorosa com Ophélia ter fracassado, abala para Paris onde se envolve com um pintor, um tipo socialmente muito instável, chamado Santa-Rita. Este, por sua vez, deu-lhe a conhecer outro jovem poeta, curiosamente ligado à pesca do bacalhau, um romântico e boémio incurável nas horas vagas, Mário Gomes de Sá.
Porém, continua a negligenciar as suas actividades, tendo, nomeadamente, grande dificuldade em traduzir línguas mortas para línguas vivas por falta de visão e crises, cada vez mais acentuadas, de gota.
Perde dinheiro no casino, entra em falência e tenta fugir aos credores. Todavia, não passa da gare da Estação de Santa Apolónia, pois nem dinheiro lhe resta para o tabaco. Desesperado e à beira da loucura, escreve uma mensagem heróica em cima do joelho enquanto Alberto esfrega um olho.
António Mão de Ferro, editor de uma revista literária de carácter muito vanguardista para a época, cujo nome não recordo agora (pode ser que me lembre mais tarde), e um coração de manteiga, não obstante ser severo, também ele um modernista até ao tutano, concede-lhe uma bolsa de estudo nas tabernas do Cais do Sodré por feliz indicação do Centro Nacional de Cultura.
Por essa altura, Fernando, ainda longe do seu melhor, anima as noites do Grémio Literário, declamando poesia lírica camoniana para uma tertúlia muito restrita de figuras notáveis da intelectualidade alfacinha. Espaço onde também é frequente haver faustosos banquetes e, mesmo, sessões de espiritismo. Entre os habitués destaca-se a presença da fadista Florbela Espanta. A artista não falha uma, como é curial dizer-se.
Atravessa, então, o período mais criativo da sua carreira literária, mas também o mais boémio e dramático. Misantropo desde que sua mãe o abandonara e aos irmãos, à sorte, numa viela da Mouraria, entrega-se aos prazeres solitários num quarto de pensão da Rua dos Prazeres e joga às damas num salão de cabeleireiro ao Jardim dos Prazeres com uma manicura brasileira, Gustava dos Prazeres.
Por essa altura também lhe retiram, injustamente, uma menção honrosa nos primeiros Jogos Florais de Alcabideche por suspeita, que mais tarde se revelou infundada, de plágio de uma estrofe do poeta fascista, António Correia do Olival.
Finalmente, morre em Lisboa em 30 de Novembro de 1935, nos braços de um amigo, por alcunha "o Almada", com cirrose e uma overdose de ansiolíticos; alegadamente, sem fé em Deus.
Certo é que, por coincidência ou obra do destino, exala o último suspiro no ano da morte de Ricardo. Não se sabe, ao certo, se os outros dois irmãos morreram antes ou depois dele, mas, segundo os soalheiros habituais, entre os quais saliento um tal Bernardo que parece ter sido um meio-irmão do poeta, nenhum escapou, nem mesmo o próprio (o Bernardo), carecendo tal afirmação de comprovação oficial.
Actualmente, alguns apaixonados pela sua obra ainda regateiam, aos sábados na Feira da Ladra, as ceroulas, os lenços, as camisas do poeta e, pasme-se, os bilhetes de eléctrico que ele guardava religiosamente! Triste fado o dos poetas... 

30.09.21

JANTARES DE FAMÍLIA


João Brito

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Lembro-me, com profunda saudade, como se fossem hoje. Assim, passo a descrevê-los, não sem alguma pontinha de tristeza. Faz parte da minha natureza melancólica q'é que querem?

Vinham todos, inclusive o avô e a avó, muito embora estivessem naquela fase da vida em que alguém tinha de estar sempre atento ao que faziam porque num momento estavam lúcidos e no seguinte desatavam a dizer ou a fazer disparates. É claro que ríamos como riem os netos com os despropósitos dos avós; achávamos piada porque nos revíamos neles.
As datas dos jantares não variavam, eram sempre na altura do Natal ou quando o avô ou a avó faziam anos.
Lembro-me tão bem da azáfama que antecedia um jantar de família. Era a mãezinha a correr de um lado para o outro, feita barata tonta; a avó arrastando o esqueleto pelos cantos da casa, perdendo uma vértebra aqui, um fémur acolá, o avô que deixava cair a prótese dentária e nós a escondê-la «eu já disse ao meu pai que tem de ir a um protésico para encher a placa!» - dizia a mãezinha muito ralada e o paizinho que resmungava sempre entre dentes que aqueles jantares tinham de acabar; que a mãezinha já não tinha saúde para os organizar; que era sempre a mesma a chegar-se à frente; que a família da mãezinha era uma cambada de penduras, et cetera. A mãezinha ripostava sempre: «deixa lá filho, é a única maneira de nos reunirmos!» e outros lugares comuns.
Continuo a lembrar-me como se fosse hoje: Assim que acordávamos, vestíamo-nos à pressa e corríamos até à cozinha para surripiar alguma guloseima já feita, ou rapar os tachos onde a mãezinha batia as massas dos bolos.
Era sempre um cheirinho a doces que nos enchia de encanto e água na boca. Às vezes, não conseguíamos evitar a bengala da avó nas mãos por via das nossas incursões. Não obstante andar presa por arames, ainda conseguia ser destra no seu manejo, embora correndo o risco de se estatelar no chão por falta de apoio momentâneo.
A poucas horas de se juntarem todos à mesa, enquanto a mãezinha apurava um pouco mais o cabrito assado e o bacalhau à lagareiro, evitando, ainda, que a avó polvilhasse o arroz doce com pimenta em pó por distracção, a gente passava o tempo a recordar as figuras mais típicas da família e havia uma que, sendo atípica, era motivo de muitas discussões acaloradas e alguns alvitramentos, nomeadamente, do paizinho: o tio de Peniche. Acabávamos por fazer a pergunta recorrente: quando é que íamos conhecer, finalmente, o tio de Peniche. O paizinho fazia, invariavelmente, a cara do costume: feia como todas as caras feias! Aliás, nem quando estava alegre conseguia pôr uma cara bonita, faça-se-lhe justiça!
Mas, voltando ao tio de Peniche, era uma coisa por demais! Desatava a debitar impropérios, tipo o tio de Peniche era um amigo de Peniche, um safardana, um maltrapilho, um gajo que não tinha onde cair morto e que se entrasse na sua casa pela porta principal, ele - o paizinho - saía pela porta dos fundos e alguns vitupérios que me abstenho de reproduzir por pudor, embora os recorde muito bem como se fossem ditos hoje.
Não percebíamos, na nossa cândida inocência - perdoe-se-me a redundância - , o ou os motivos de tanto rancor pelo tio de Peniche. Pensávamos, até, que o tio estava muito doente, daí o facto de nunca poder vir aos jantares de família. Tampouco percebíamos por que é que o paizinho se zangava tanto, assim que era pronunciado o nome do tio de Peniche.
Em boa verdade, o paizinho andava sempre zangado e isso era coisa que também não entendíamos porque, assim que começava a beber, melhorava a olhos vistos. A avó é que estava sempre a dizer à mãezinha: «Do mal o menos, filha, valham-te os bons vinhos desse desgraçado!».
Não percebíamos o que a avó queria dizer com aquilo, pois o vinho que o paizinho bebia era um "tinto rascante" - segundo as suas palavras - vendido a granel na taberna do senhor Salgado.
Quem salvava sempre a honra do convento era a mãezinha com as suas infinitas paciência e bondade, sempre a deitar água na fervura, ao mesmo tempo que limpava as mãos ao avental; não sem antes provar para ver se estava bom de sal: «Pode ser que ele nos faça uma surpresa este ano!» - exclamava a mãezinha em tom reconciliador, perante o olhar reprovador do paizinho. Afinal vale sempre a pena ter a família reunida em momentos muito especiais. Penso que seria esse o sentimento da mãezinha, do qual se orgulhava muito, apesar do feitio implicante do paizinho.
Recordo tão bem como se fosse hoje. A família ia chegando, um a um, aos pares, aos trios e por aí adiante, e distribuíam-se beijinhos e abraços com cheiro a sovaco, misturado com água de colónia reles. Distribuíam-se também prendinhas: os habituais rebuçados "paladares" que a tia da Cova da Piedade comprava no barco, umas moeditas de cinco, ou dez tostões para os nossos mealheiros e uma garrafa de aguardente para o paizinho. A mãezinha, que tinha sempre todo o trabalho e todo o prazer de ter a família reunida, nunca recebia fosse o que fosse. Nem um quilinho de farinha Branca de Neve (passe a publicidade)!
Recordo, ainda, como se fosse hoje, que o paizinho ficava logo zonzo e muito alegre ao segundo copo. Chegava a dar palmadinhas carinhosas nas costas da avó - gesto admirável - , sabendo nós como ambos nutriam um ódio de estimação mútuo. Um dia, isto há um bom par de anos, excedeu-se com mimos e deu-lhe uma palmada mais forte. Nesse dia tiveram de a levar às urgências do São José para lhe recolocarem uma omoplata no sítio.
Os jantares de família eram bem catitas! Recordo-os tão bem, como se fossem hoje. Pena que nunca mais se fizeram desde aquele infeliz incidente provocado pelo avô. Não sabemos o que estaria a pensar quando pegou fogo à casa. Certo é que nos deu algum gozo observar a casa a arder e os esforços da avó, em vão, para tentar salvar o esqueleto. O que nós rimos com aquela cena!
Conquanto os jantares não tivessem acabado após esta tragédia, agora já não há família e jantares sem família deixaram de ter graça.
Decorrido tanto tempo, continuo sem saber se o avô deixara de tomar os comprimidos para a demência ou se se tinha zangado seriamente com a avó...

30.09.21

AUSTRALOPITECO MARRECO QUADRÚPEDE VERSUS HOMO SAPIENS


João Brito

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O australopiteco apercebeu-se da maleficência que o Homo sapiens havia feito à civilização e não perdeu a oportunidade para lhe jogar tal facto à cara:

«Escuta aqui, ó palerma: tu que presunçosamente te gabas de utilizar 90 a 109 por cento do Q.I. que herdaste do macaco, teu progenitor, podias ter-lhe dado melhor uso, não achas?»

Apanhado na curva, o Homo sapiens que tinha a perfeita noção da rivalidade existente entre aquela horripilante e estúpida criatura e o seu ancestral antropóide, sentiu ganas de esganar, já ali, o vil mostrengo. Porém, não fosse, naquele estádio, um ser muito complexo e altamente evoluído, não teria refreado os extintos primários adormecidos. Assim, numa atitude de altiva indiferença, a única coisa que lhe saiu, foi:
«Q'é que estavas a grunhir?»
«És, mesmo, um toino! - voltou o néscio com maus modos - Tu que tiveste oportunidades fantásticas de fazer coisas giras e porreiras para a malta, na verdade, fizeste tudo ao contrário e foste inventar tretas como os impostos, taxas, sobretaxas e outras tributações para quê?! És parvo ou fazes-te? Se a malta estava satisfeita até ali; colhia o que queria do jardim da Celeste*; não havia motivo para se preocupar com o IVA e o IRS; não tinha de gramar o primeiro ministro ou o presidente da República a falarem ao mesmo tempo nas televisões generalistas e podia ter as fêmeas que quisesse, por que é que foste regurgitar essas aberrações, pá?!»
«Estás muito enganado, o meu pai nunca cobiçou fêmeas alheias!» - disse o sapiens, pouco refeito da provocação do pitecóide.
«Não percebeste, pois não, sapiens?... O teu pai - chamemos-lhe assim - sofria de disfunção eréctil irreversível, meu! Ora, se ele padecia de tal maleita, como é que foste concebido, se ainda faltam alguns milhões de anos para o advento do poder da concepção virginal por obra e graça do Divino Espírito Santo, diz lá!»
«Desculpa lá, mas o meu pai era um excelente macaco!» - respondeu o sapiens, circunstancialmente.
«Está bem; e o meu era um babuíno bargante! - disse o piteco - Mas é o que tens andado a germinar que está em discussão e não o infeliz acaso de seres filho de pai incógnito. Portanto, passemos à frente. Sabes o que significa hipocrisia?»
«Parece-me que essa palavra ainda não faz parte do meu léxico; vou ter que memorizá-la para não me esquecer.» - disse o sapiens.
«Atrevo-me a dizer-te que não passas de um dissimulado e que sabes perfeitamente o seu significado. Fazes o que te convém, de acordo com as tuas prerrogativas! A sociedade do futuro será um somatório de todas as tuas vicissitudes, inclusive do teu egoísmo. Coisas simples como, por exemplo, o livre arbítrio, não precisam de regulamentos ou de convenções; são um direito universal! Percebeste, meu adunco?»
Sob tão pesado e persuasivo argumento, para mais com tão imaculada prosódia, naquele momento preciso, sapiens passava dramaticamente ao estado de curvilíneo perante a ascensão do australopiteco ao estatuto de bípede racional. É claro que esta mudança não se deu do dia para a noite, mas é só para avançar mais depressa porque a prosa está a ser secante e parece-me que esgotei o repertório. Vou rematar, embora não goste muito deste final:
Então, o piteco, lá do alto dos seus erectos, 1 metro e 52 centímetros, atirava para o fundo da baliza:
«Havia erva da boa; fruta; árvores; peixe; carne; sessões contínuas no Olímpia; o Benfica era Campeão europeu; o Ronaldo marcava uma porrada de golos pela selecção; não tínhamos de levar todos os dias com debates sobre futebol ou com discussões entediantes sobre as operações Marquês, E-toupeira, Cartão Vermelho e outras que tais ou gramar a gajada política de todos os quadrantes a tentar convencer-nos de que o seu partido é que nos vai devolver a felicidade, enfim...»
 
(*) O Jardim Celeste já neste período proto-histórico era um mito. Comprovou-se, através de datação por carbono 14, bastante anterior ao aparecimento da escrita, que o jardim era efectivamente da Celeste.

 

30.09.21

CORONAVÍRUS


João Brito

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15 de Março de 2020:

Entro numa farmácia de um conhecido centro comercial a fim de levantar um medicamento que havia encomendado dias antes. Estava pouca gente.
Algo que consideraria invulgar, em condições normais, dado que tem muita afluência.
A farmacêutica que me atendeu, uma moça aparentando estar na casa dos trinta, calçava luvas descartáveis, à semelhança dos restantes funcionários. Disse-me para adquirir tudo o que tinha de adquirir e evitar deslocações desnecessárias: "pela sua saúde e a de todos". Aconselhou-me a fazê-lo, com o ar mais apreensivo deste mundo e, simultaneamente, num tom brando; talvez a reproduzir uma frase que já repetiu tantas vezes nestes últimos dias a alguém, velho e imponderado como eu.
Estava a olhar para um tipo, quiçá, menos preocupado do que ela com o próprio estado de saúde e mais: deveras imprudente; um indivíduo que ainda não tomara consciência do que se estava a passar e que prossegue a uma velocidade célere de contaminação em cadeia. Ainda não há mortes em Portugal, mas, ao ritmo a que se processam os acontecimentos, serão inevitáveis. Gostava de não ter razão...
Penso que, não obstante os exemplos mais marcantes até à data: Itália e Espanha, ainda não estamos bem acordados do choque brutal e da drástica mudança de hábitos a que esta nova e trágica realidade nos vai sujeitar, porventura, durante tempo incalculável. É a nossa estúpida e persistente atitude de pensarmos que só acontece aos outros...
Ontem estava menos preocupado, mas hoje fiquei com a impressão de que levei uma enorme bofetada; talvez, para acordar da apatia. Foi, certamente, a "bofetada" afectuosa da farmacêutica que me atendeu...
Vou seguir religiosamente o seu conselho, pois não quero morrer já.
Espero, ainda, ter o prazer de continuar na companhia de quem me é caro até ao resto dos anos que me faltam para embarcar.
A vida também é feita de imponderáveis e este parece ser um dos mais terríveis de sempre que nos está a apoquentar.
Já não há gente viva para relatar o que foi a "pneumónica", mas deve ter sido, seguramente, a pior de todas as pandemias. Até hoje...

29 de Setembro de 2021:
E eis-nos aqui, os, até à data, sobreviventes desta coisa, passado mais de um ano sobre o seu primeiro surto em Portugal. Aparentemente, já não estamos dependentes de factores como a capacidade do SNS em vacinar o maior número possível de pessoas para se atingir a tal "imunidade de grupo". Acho que esse objectivo indispensável foi atingido. Agora só falta não neglicenciar o comportamento social para não deitar por terra tudo o que foi feito com diligência e sacrifício pelos nossos profissionais de saúde.

Seria injusto se não deixasse, também, uma nota de reconhecimento aos responsáveis políticos, DGS e, especialmente, ao pessoal da "task force" da vacinação sob o comando do Vice-Almirante Gouveia e Melo. Bem hajam!

29.09.21

MARIA, UMA MULHER MODERNA PARA O SEU TEMPO


João Brito

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Pode ter sido uma mulher moderna para aquele tempo. Se calhar, fora de tempo. Jamais se saberá ou, quiçá, a seu tempo. Contudo, já ninguém é vivo para testemunhar se teria valido a pena ter sido uma mulher daquele tempo. Perante estas conjecturas não é difícil imaginar que tivesse existido uma mulher moderna para o seu tempo.

1 de Abril de 1911:
As pessoas do meu tempo acham que sou uma mulher sem qualquer obrigação moral.
Coisas mundanas como fumar um cigarro, entrar no Martinho da Arcada, sentar-me na mesa do Nandinho sem ser convidada, descobrir as pernas, ao de leve, acima dos joelhos para os olhares desejosos dos homens, o que é que estes gestos têm de mais?
Que culpa tenho de ter um corpo escandalosamente bonito? A minha avó habituara-me a apreciar as coisas boas da vida desde que a estavanada da minha mãe fugira com um caixeiro-viajante.
Mas o que mais incomoda esta gente serôdia, nomeadamente os homens, é o facto de ter escrito acerca de algo tão normal como o sexo.
A sexualidade não é uma característica exclusiva dos homens. E se eles têm a veleidade de conquistar todas as mulheres que se lhes atravessam no caminho, a elas cabe o direito de responder com o mesmo capricho.
Chocou às mentalidades broncas, é claro! Sobretudo àquelas que pensam que nós somos burras e, por conseguinte, temos de ser fiéis, tolerantes, obedientes e outros cândidos atributos. Porém, esquecem-se que, lá em casa, as suas mulheres também podem ter, secretamente, desejos lúbricos em relação a outros homens. Sobretudo, quando eles não dão uma para a caixa.
Consta que um tal Barbosa, um dos mais obstinados moralistas do meu tempo, fulano de porte mediano, aparentemente austero, grande frequentador de lupanares - segundo conta o mentideiro ocioso da burguesia alfacinha - , anda a fazer apostas com amigos, garantindo-lhes que não vai descansar enquanto não partilhar os meus lençóis. O objectivo do marialva é provar à agremiação de cretinos, de que faz parte, que mulher que se deite com ele não vai desejar dormir com outros homens...

25 de Abril de 1911:
No final do dia deste esplendoroso mês a cheirar a cravos, entrei no Martinho para tomar a minha bica em chávena escaldada, como o faço habitualmente, e lá os encontrei mais o Barbosa. Cumprimentei-os e foram de um polimento extremo, direi mesmo excessivo. Contudo não se coibiram de me assestarem olhares gulosos no decote. Bem, confesso que é difícil a um homem de bom gosto desviar os olhos de um decote generoso. Desta feita aprimorei-me.
Sentei-me no lugarzinho cativo do Nandinho, filei o Barbosa e atirei-lhe de chofre: «O que faz você para estar cada vez mais borracho?». Vermelho e balbuciante, com gotículas de suor no beiço superior, embora estivesse um final de tarde fresco, continuei: «com uma carinha tão bonita, tão bem escanhoada e com uma atitude tão máscula, palpita-me que também deve ter argumentos capazes de satisfazer a mulher mais exigente...».
Pedi-lhe para desabotoar apenas dois botões da sua camisa de linho a fim de verificar se tinha cabelos no peito, pois - expliquei bem alto para que todos ouvissem - «é algo que aprecio particularmente». Certificado o facto de os ter, embora pouco densos, convidei-o para me acompanhar a casa, pois tinha algo interessante que gostava de compartilhar com ele. Embaraçado perante a risota geral e não querendo dar parte de fraco, decidiu-se a aceder ao meu pedido e lá fomos.
No primeiro lance de escadas atirei-me a ele que nem uma loba e beijei-o sofregamente na boca, pedindo-lhe que me desculpasse o impulso, mas era algo que eu desejava fazer há muito tempo, só que ainda não tinha surgido a oportunidade.
Conduzi-o, sem mais delongas, escadas acima até ao apartamento e, já no quarto, empurrei-o para cima da cama, abri-lhe a camisa, devorei-o com beijos loucos e, enfim, nu. Elogiei-lhe o corpo para o pôr à vontade, afaguei-o, sussurrei-lhe palavras que não ouso publicar aqui, pedi-lhe que se entregasse todo aos meus ímpetos até à saciedade. Jurei-lhe, por todos os santinhos, que nada passaria daquelas quatro paredes.
 
26 de Abril de 1911:
Apesar de todos os meus esforços, o Barbosa foi uma decepção: o homem não tem ponta por onde se pegue e, claro, senti-me, naturalmente, desencantada.

29.09.21

INFLAÇÃO GALOPANTE


João Brito

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João Ratão 14.09.2014

O homem entrou numa pastelaria, pediu uma bica e botou um euro em cima do balcão.
O empregado mirou-o de soslaio e disse:
- A bica é um euro e cinquenta cêntimos, amigo!
- Mas, ainda ontem, aqui mesmo, paguei um euro por uma bica!
- Não desminto que a tivesse pago a esse preço, mas, de ontem para hoje, inflacionou!
- Isto está cada vez pior, é tudo a roubar, que raio de país!
Como o homem estava à rasca para tomar um café, lá puxou de mais cinquenta cêntimos, só para não estar a empatar a fila de clientes junto à caixa. O empregado olhou-o novamente e, com cara de poucos amigos, disse:
- Você deve estar a gozar comigo! Então não vê que um euro e cinquenta cêntimos não chega para pagar a bica?
Meio baralhado e pensando que aquilo só podia ser para os apanhados, respondeu:
- Então, mas ainda agora disse-me que a bica custava um euro e cinquenta cêntimos!
- Pois é, mas, com a inflação galopante, um euro e cinquenta cêntimos já não dá para as despesas q'é que quer?
- Então diga lá quanto é que custa a bica para não perdermos mais tempo, que diabo!
- 2 euros!
- 2 euros?!...Porra, isto está bonito, está! Pronto, aqui tem os 2 euros...
O empregado olhou-o novamente, meio chateado, e disse:
- Então, e o imposto?
- Oh que caraças, mas qual imposto?!
- O imposto de transacção que entrou em vigor às zero horas de hoje. Você não anda a par das notícias?
- Olhe, não sabia, palavra d'honra!
O empregado, com um ar de pessoa muito bem informada, continuou:
- Eu elucido-o. Aqui, no "Matutino", reza o seguinte: "O imposto de transacção sobre o consumo unitário médio, previsto para o ano decorrente e seguintes, sobe cem por cento"..., 'tá a ver?
E acrescenta, antes que o homem tenha tempo para retorquir:
- Fora o preço do novo programa informático de facturação e outros encargos fiscais! Não podemos ser só nós, comerciantes, a suportar as despesas, caro senhor! Portanto, isso a somar aos dois euros que pretendia pagar até agora pela sua biquinha, arredonda-lhe a coisa para os dois euros e cinquenta cêntimos.
Como era de prever, o homem começou a mostrar sinais evidentes de grande perturbação:
- Mas, estão todos doidos?! Querem que me dê uma coisa mazinha, ou quê?!
- Bom - ripostou o empregado tentando acalmá-lo - , se pedir recibo com o número de contribuinte, ainda se habilita a um automóvel topo de gama que, como sabe, é sorteado semanalmente. Portanto, veja a coisa pelo lado positivo; nem tudo está perdido, amigo!
Manifestamente desesperado, o homem já estava por tudo. Ele só queria tomar uma bica, fosse a que preço fosse. Uma bica por CARIDADE (a palavra destacada a letras garrafais é despropositada, mas é só para enfatizar o momento dramático)!
Tinha acabado de absorver o primeiro gole do conteúdo da chávena quando o seu rosto empalideceu subitamente e:
- Mas esta merda é tudo menos café!
- É claro que não é café e escusa de ser malcriado, caro senhor! - apressou-se o empregado, indignado, a explicar - Este é um lote especial de cevada e chicória, uma mistura, digamos assim. Se continuássemos a servir café puro, como até ontem o fizemos, com a inflação galopante, a sua bica subiria para os cinco euros, amigo!
Foi nesse preciso instante que se deu um acontecimento inesperado, uma reacção que ninguém esperava (passe a redundância). O sujeito, certamente possesso (só pode ter sido), atirou-se para cima do balcão, agarrou o empregado pelo colarinho, e obrigou-o a engolir quinze duchaises, vinte e cinco bolas de berlim, três quilos de bolos secos surtidos, um frasco de rebuçados de mentol e cinco caixas de bombons de chocolate belga, com lacinhos e tudo.
Ora, algum tempo depois deste infeliz desenlace de consequências muito graves, diria mesmo gravosas, tanto para o empregado como para o homem, escusado será explaná-las, e após julgamento, o acórdão do tribunal foi sumariamente proferido pelo juiz presidente:
- O réu é condenado a quinze anos de prisão maior agravada, por crime de ofensa à integridade física, seguida de tentativa de homicídio!
- Tentativa de homicídio, senhor doutor juiz?! - balbuciou o homem - Quando as consequências do meu acto insensato - não contesto - foram praticamente inofensivas, pois não passaram de umas diarreias insignificantes, uma colite ou outra, uma úlcera péptica e uma perfuração esofágica; o senhor até foi trabalhar no dia seguinte, veja lá vossa excelência, e levo com quinze anos?!
- Tem alguma razão. Não lha dou toda, senão não o teria condenado a uma pena tão pesada! - respondeu-lhe o juiz - Se fosse ontem condenava-o a um ano de prisão com pena suspensa. Assim, olhe, culpe a inflação galopante!... 

28.09.21

SERVIÇO DE URGÊNCIA


João Brito

serviço de urgência.jpg

23H45 do dia 03 de Setembro de 2008:

Entro no serviço de urgência do hospital com um homem visivelmente debilitado. Sofre de náuseas, vertigens e uma pressão inusitada na cabeça e nos ouvidos.

Peço uma cadeira de rodas para o sentar, ao que prontamente dois seguranças correspondem. Sinto-me impotente para lhe aliviar o sofrimento.
Não demorou muito a ser atendido na triagem: de que é que se queixa, as drogas que toma, desde quando é que se sente assim, medição da tensão arterial, enfim, os procedimentos habituais em iguais circunstâncias, presumo.
Não é a primeira vez que corro com ele para as urgências e penso que não há-de ser a última, se bem que, quando para lá caminho, fique com a impressão de que já de lá não sai. A idade não perdoa estas "recaídas"...
«É familiar?»
«Sim, sou filho!»...
Acompanho-o, colam-me a etiqueta de acompanhante. Vai para a observação...
Um corredor, várias salas, macas com doentes, macas vazias, cadeiras de rodas e o cheiro característico a ar condicionado misturado com formol. Qualquer odor, bom ou mau, comunica-nos sempre algo. Os odores enviam mensagens óbvias em diversas circunstâncias; noutras requerem descodificação. Os cheiros de um hospital, causam-me invariavelmente desconforto. Talvez, resultado de uma experiência menos boa, em ambiente hospitalar, quando era criança. Curiosamente, ficaram-me fragmentos, nada agradáveis, dum episódio da minha infância...
Um sujeito, provavelmente a ressacar da sua toxicodependência, lança impropérios e pede desesperadamente a alguém que lhe dê uma "injecção". Algo que eu reclamaria, agora, a todos os santinhos, com a intranquilidade própria de quem quer a todo o transe alguma coisa para aliviar o tormento do homem a seu lado.
Perpassam-me ideias confusas, algumas absurdas. São as pessoas; os olhares; o estado de sofrimento e ansiedade de meu pai; os gemidos aqui e ali; o vai e vem dos médicos e enfermeiros; a mulher sentada numa cadeira de rodas que me pergunta se sou filho daquele senhor e que me diz estar ali, vai para muitas horas; que é de longe e está sozinha; que quer ir para casa e algo mais que balbuceia...
Uma auxiliar de enfermagem está quase a ficar passada com a cena do homenzinho presumivelmente ressacado; lê-se no seu olhar reprovador. Vocifera qualquer coisa entre dentes a que não presto muita atenção, tão imerso que estou na situação do meu pai.
Um homem andrajoso, com farta e suja cabeleira, passeia-se tranquilamente entre o corredor e as salas de observação. Pelo aspecto, estou certo de que não pertence aos quadros do hospital. Nem sei que raio de estatuto possa ser o seu, para deambular por ali. Entretém-se a devorar iogurtes, supostamente postos à disposição dos doentes e funcionários de serviço às urgências durante a noite. O tempo passa...
 
2H45 do dia 4 de Setembro de 2008:
Meu pai continua a desesperar na maldita cadeira de rodas. Não sente os pés, os braços pesam-lhe, ameaça bolçar o vazio que lhe resta no estômago, a cabeça rebenta-lhe, geme, adormece e volta a gemer. As queixas recorrentes. Uma médica, sorridente, olha-me nos olhos, pergunta-me há quanto tempo ali estamos, mira-me o autocolante, está lá indicada a hora de acesso às urgências:
«Estamos aqui há 3 horas, doutora!» - e ela sorridente; um sorriso cansado, aliás. Por isso não suficiente para me tranquilizar.
«Só 3 horas?!» - Olha para outro doente, o mesmo gesto, o mesmo sorriso, manda-o entrar, está lá há mais tempo para ser observado.
Uma acompanhante de outro doente, admirada com o facto de eu ter referido que estava ali há 3 horas, ironiza baixinho:
«E nós estamos aqui há 10!»
Pois é, esta história de clínicos tarefeiros, pagos à hora, dá maus resultados: é preciso que as horas de turno se esgotem, sem grandes sobressaltos - João Semana é um mito...
O homem andrajoso passa ao nosso lado e deixa um rasto fétido. Tira mais dois iogurtes, enfia um num bolso das calças e o outro espreme-o alarvemente para dentro da goela. Entra numa sala, conversa com um doutor e sai por outra.
O eventual toxicodependente vomita gritos intermitentes de agonia, agride verbalmente todos a torto e a direito e passeia-se numa cadeira de rodas, impedindo a circulação das macas com doentes. A tal auxiliar de enfermagem afasta-o do caminho, atira-lhe ameaças vãs e as horas continuam a passar...
 
3h30:
O meu pai é chamado:
«De que se queixa?»
«Sofre disto, daquilo e daqueloutro»
Análises ao sangue, ECG, RX ao tórax e não sei que mais. Outra espera interminável. Após o ECG:
«Sr fulano então, sente-se melhor?»
«Qual quê, são os noventa anos, sabe?... Que rica maneira de festejar a minha data de aniversário!»
«Faz 90 anos hoje?!...Ah, nem parece! Parabéns, senhor!»
«Obrigado, mas preferia não padecer desta aflição!»...
Dificilmente, consigo permanecer lúcido a esta hora da noite...
 
4H00:
Vou lá fora ao guiché das urgências, peço por obséquio para me trocarem uma nota de 5 euros. Preciso de tomar um café ou dois. A maquineta, ali, à mão de semear, um café que me restitua a espertina, me reponha alguma energia. Indiferente, a funcionária responde-me que não tem trocado. Uma miragem, o meu café; que raio de solidariedade!...
Regresso para junto do meu pai, mais uma espera infinita. Dormita e acorda com a mesma pergunta ao longo destas horas:
«Quando é que sou visto pelo médico?»
«Não tarda, pai, não tarda...»
RX ao tórax...mais uma espera. Um fulano esvai-se em sangue, supostamente do baixo ventre. Levanta-se do seu lugar e vai aos lavabos. Na cadeira um jornal tingido de vermelho, empapado. Impróprio para mentes fracas. Não para a minha, que jaz meio entorpecida a estas horas...
 
4H30, por aí:
O resultado dos exames tarda. Aguardamos no corredor...Entre o dormitar e o sobressalto, o meu pai solta:
«Diz-lhes que o mal está dentro da minha cabeça; dos meus ouvidos! De nada me servem esses exames! Sinto-me muito mal, mesmo, sinto a cabeça rebentar, o meu corpo pesa que nem chumbo!»
«Acalme-se, pai, vamos lá!»
Piorou! A ansiedade parece ter atingido o ponto de ruptura; digo a um enfermeiro que o meu pai não está nada bem, o enfermeiro diz à médica que o meu pai está com mau aspecto, a doutora ordena que o deitem numa maca: soro, fios ligados ao peito e algo injectável para o acalmar... Novo ECG para confrontar medições, a médica suspeita de enfarte, suspeita que não se confirma, após nova medição...
 
5H30, mais coisa menos coisa:
Meu pai dormita e acorda, diz-me para lhe pôr a cabeceira da maca mais elevada. Está mais sereno, com melhor cor. A médica está a acabar o turno de serviço e passa a bola a outro colega. Diz-me:
«O seu pai vai melhorar. Ele tem muito miminho não tem?»
Anuo, com alguma dificuldade em aceitar a evidência. O meu pai fica muito nervoso quando tudo lhe corre mal. Pensa que vai morrer. É o seu temperamento, a sua maldita idiossincrasia, face à mais ténue contrariedade.
O médico substituto lê o resultado dos exames e diz-me que está tudo bem. Receita uns comprimidos e deseja as melhoras. Tem a certeza que tudo aquilo não passou de um susto. Aconselha repouso absoluto.
 
São 7H00:
Saímos do hospital. Passamos pela mulherzinha solitária. Vai apanhar o autocarro.
Do presumível toxicodependente nem rasto.
Está uma manhã de chuva morrinhenta e um pouco fria. Saímos daquele purgatório, esgotados por razões diferentes.
Aconteceu no serviço de urgência do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca
 

28.09.21

UMA ESTÓRIA COM MUITO SANGUE


João Brito

uma estória com muito sangue.jpg

Um homem mau pega num telemóvel e digita um número. Alguém atende:

Homem mau:
- «Boa tarde, daqui fala o estripador de Lisboa e telefono só para informá-lo de que acabei de matar a sua esposa.»
Do outro lado:
- «O quê, como disse?!...Quem fala?»
Homem mau:
- «Parece-me que fui bem claro! Sou o estripador de Lisboa e assassinei a sua mulher há minutos!»
Do outro lado:
- «E foi onde?»
Homem mau:
- «Foi em sua casa.»
Do outro lado:
«E como foi?»
Homem mau:
- «Matei-a com uma dúzia de facadas.»
Do outro lado:
- «Sangrou muito?»
Homem mau:
- «Um bocadinho, fiquei todo salpicado!»
Do outro lado:
- «E a alcatifa?»
Homem mau:
- «Ficou toda ensanguentada, o que é que esperava?!»
Do outro lado:
- «Você faz ideia de quanto me custou a porra da alcatifa?»
Homem mau:
- «Lá por isso eu pago-lhe a limpeza da merda da alcatifa; não é preciso ficar para aí todo abespinhado, homem!»
Do outro lado:
- «Sempre ajuda! Se você pensa que tenho para aqui alguma árvore das patacas, desengane-se!»
Segue-se um momento de pausa no diálogo e o homem mau prossegue:
- «Pensando melhor: não acha ilógico ser eu a pagar, depois de lhe ter comunicado o homicídio da sua esposa?»
Do outro lado:
- «E você ainda acredita na lógica das coisas? Não repara no que se passa ao seu redor, mais a mais, confessando ser um assassino da pior estirpe? Fico com a clara impressão de que não passa de um amador!»
Homem mau:
- «Visto desse ângulo... e quanto ao amadorismo, deixe-me dizer-lhe que sou credenciado e tenho boas referências. Ademais, fazendo jus a um avito familiar, não menos famoso!»
Do outro lado:
- «Com tão excelentes alusões, ao menos podia ter usado uma pistola com silenciador. Teria sido uma morte mais limpa e rápida e escusava de incomodar a vizinhança; ela deve ter gritado bastante, coitadinha! Não sou especialista, mas presumo que bastava apontar-lhe directamente ao coração e teria evitado a porcaria e, quiçá, o sofrimento que causou!»
Homem mau:
- «De facto, desta vez, não ponderei os prós e os contras. No entanto, deixe que lhe diga que, habitualmente, não uso armas de fogo; e não dramatizemos tanto esta estória porque a sua consorte, afinal, só gritou um bocadinho, não foi nada de especial, fique tranquilo. Queira aceitar, desde já, as minhas desculpas e aproveito o ensejo para lhe manifestar as minhas mais sinceras e profundas condolências...»
- «Ah, como quer que lhe pague a limpeza da alcatifa? Aceita transferência bancária ou mando-lhe um cheque?»

28.09.21

O REGRESSO


João Brito

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- «Passas o dia agarrado à porcaria do telemóvel; faltas às aulas; não levas o cão à rua; não pegas num livro e não arrumas o teu quarto! - bradava-lhe a mãe, desesperada - Garanto-te que não vais continuar na boa-vai-ela, foi a gota d'água! Quando o teu pai chegar a casa, vais entender-te com ele, ouviste?»

O pai chegou, zangadíssimo com a puta da vida e com o trabalho duro mal remunerado: uma merda de salário que quase não dava para o tabaco. Pior do que isso, e por consequência, eram as idas cada vez menos frequentes, ao estádio do seu "glorioso"; isso é que o magoava sobremaneira.
Com a mulher aos berros a fazer queixas do rapaz, as coisas descontrolaram-se e o homem não esteve com meias medidas: entrou de supetão no quarto do puto e pregou-lhe uma cabeçada, mesmo no meio da testa, que o deixou meio zonzo.
Recomposto, apesar de vacilar ligeiramente, o jovem replicou pronta e eficazmente com um "uppercut", com salto mortal à retaguarda, e rematando com um excelente pontapé lateral, com a parte externa do pé, que pôs o paizinho a ver estrelas, planetas e cometas, não obstante estar uma noite de nevoeiro cerrado.
Sacana do fedelho, desde que trocara a catequese pelo "kickboxing", até parecia que se sentia mais desinibido!

- Quando tocou a campainha, os amantes, bestialmente frustrados por via do coito interrompido (não confundir com o método anticoncepcional do coito interrompido), mas também dominados pelo terror, estremeceram sob os lençóis: 

«Meu Deus, Pedro, quem será a esta hora!? Ai, Pedro que desgraça a nossa!» - Exclamou ela que até era casada com Pedro. 
A tradição anedótica faz-nos tirar ilações precipitadas. Penso que é um defeito cultural. Se não for, olhem, que se lixe!

- E eis-me regressado a uma coisa de que gosto muito: a "criatividade literária". Este é o meu segundo blogue. O anterior "jaz morto e arrefece". Espero que desfrutem, senão, olhem, "desculpem qualquer coisinha!"