Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

21.01.21

A NOSSA BOMBA ATÓMICA


João Brito

a bomba atómica portuguesa.jpg

Como me sobra muito tempo para pensar, tenho andado cá a cismar com uma ideia e decidi revelá-la só pra vocês. Sei cá; há coisas q'a gente não pode, simplesmente, guardar, mesmo que sejam falsas e, afinal, a falsidade até está na moda, n'é? Aliás, segundo Descartes que, como sabem, era um filósofo céptico c'mo caraças, as ideias são o produto de uma imaginação febril e, nessa perspectiva, existe uma necessidade imperiosa de as partilhar com alguém.
A relevância deste sentimento de identificação, digamos assim, prende-se com um aspecto de primordial importância para a nossa sobrevivência como país soberano. Se é que as pessoas ainda têm alguma noção do seu significado. Trata-se, obviamente, de um elemento fundamental para a nossa continuidade como nação independente.
Ora, a minha convicção é a de que estamos muito desprotegidos. A nossa defesa e integridade territorial andam um bocadinho à deriva; não conseguimos impor respeito, inclusive àquelas couvinhas de Bruxelas, e acho que é uma situação muito comprometedora para a nossa credibilidade internacional e, por conseguinte, deixa-nos muito expostos.
Penso que devíamos por cobro, de forma exemplar, a essa falta de consideração. Todos querem botar a pata em cima de nós e não pode ser! Temos de acordar deste maldito sopitamento que nos persegue há séculos! O que lá vai, lá vai. É tempo de olharmos em frente e fazer cumprir Portugal como dizia uma pessoa muito importante, cujo nome não me ocorre de momento.
Assim, lembrei-me da história dos submarinos e surgiu-me uma ideia que julgo que seria do agrado das altas patentes militares, nomeadamente do almirantado e do generalato.
Estou convicto de que ainda há patriotas, sabendo, contudo, que nos debatemos com uma crise de falta de patriotismo que até dá dó! Ao menos valham-nos as honrosas excepções dos políticos da nossa praça, designadamente, aqueles valorosos que estão lá fora, há uma porrada de anos, a lutar pela Pátria no Parlamento Europeu.
E é aqui que entra o conceito que está na base deste artigo: a bomba atómica. Pergunto porque carga d'água é que há países que têm bombas atómicas e nós não? Vá, expliquem-me! Lá porque somos pequeninos não significa que tenhamos menos valor, que diabo! Aliás, até se costuma dizer que os países não se medem aos palmos e, nestas coisas, dou a mão à palmatória da sabedoria popular.
Por isso acho que também devíamos ter uma bomba atómica. Das melhorzinhas, claro. Não queremos cá a porcaria que os americanos já não usam! Mesmo que fosse pequenina! Dava-nos cá um jeitão, não acham?
O ideal era - e aqui é que entra a prestimosa e elevada colaboração dos nossos almirantes - instalá-la num dos Tridente; sim porque a gente só quer uma, não são necessárias mais. Ficava instalada bem à vista para suscitar algum respeito aos transatlânticos que, um dia, não se sabe quando, vão voltar a atravessar o estuário do Tejo num constante vai e vem. Assim, os turistas palermas que nos visitarem, já podem ir contar lá para os seus países que a gente também tem uma bomba atómica e não está para brincadeiras!
É evidente que é preciso ter sempre algum cuidado. Imaginem que esta estrangeirada é mal intencionada e resolve não regressar aos países de origem. Com que intuitos, vá, digam?! Isto, agora, todos os cuidados são poucos, pois, por trás da aparente bonomia de um nórdico estupidamente louro, pode-se esconder um potencial jihadista islâmico!
Assim, para evitar surpresas desagradáveis, levavam logo com uma bujarda de aviso que até andavam de roda e punham-se logo na alheta que era limpinho! Só para não se armarem aos cucos! Depois, fossem lá fazer queixinhas ao Totta q'a gente até agradecia! Sem contar que era bestial para a nossa auto-estima, diga-se de passagem!
A propósito de auto-estima e antes que me esqueça, quero deixar aqui um aparte: reforçar a minha mais profunda admiração pelo nosso falecido rei, D.Sebastião "O Desejado". Ainda estou convicto de que, um dia, sobretudo com nevoeiro, ele há-de vir, se Deus quiser. Não me posso esquecer daquela sua célebre frase: "Mais vale ser rei por um dia, do que escrava toda a vida!", lembram-se? Se isto não era auto-estima, então era o quê? Bem, é assim: não sei se foi ele, se foi o Padre António Vieira ou o Fernão Mendes Pinto, mas isso não é muito relevante para esta estória. O que é relevante é que tenhamos em mente que de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos! Vejam o caso dos ex-soberanos, Juan Carlos e Sofia que, até há bem pouco tempo, dormiam em camas separadas desde que se casaram ou o da infanta Cristina, envolvida em escândalos de corrupção, juntamente com o seu marido, um conhecido empresário mafioso com ligações à Cosa nostra.
Já não há monarquias como no tempo do D. Afonso Henriques. Se bem que o que ele fez à mãe foi muito feio! Todavia, penso que os portugueses o perdoaram há muito porque desse triste episódio resultou este belo "canto à beira-mar plantado", como a malta gosta de dizer.
Mas, voltando ao "Toro de Osborne", é preciso estarmos atentos, não vamos levar uma cornada quando e onde menos esperarmos.
Esta coisa de partilharmos, há séculos, a mesma península, não obsta a que um dia, enquanto estivermos a dormir, os castelhanos não se lembrem de entrar por aqui adentro, aproveitando o facto de termos o mau hábito de adormecer de barriga para baixo.
Por essas e por outras é que era ideal termos a tal bomba atómica preparada para qualquer eventualidade. Além disso, se os "nuestros hermanos" soubessem que tínhamos uma coisa dessas, pensavam duas vezes antes de nos invadirem. Sempre ouvi dizer que o respeitinho é muito bonito! É claro que se atirássemos para lá a nossa bomba, eles podiam retaliar com a central nuclear de Almaraz, rebentar com aquilo e lixar tudo, mas quem tem cu tem medo e, com bomba daqui e central dali, sempre se reduzem as chances de uma crise atómica. É a chamada "paz nuclear", estão a ver a coisa?
A bombinha faz-nos muita falta! É pena estarem tão caras, mas isso também se podia resolver através de uma subscrição nacional. A dividir por todos não custava nada e até podia ser que nos fizessem um desconto especial. Se estamos a sustentar os banqueiros sem termos contrapartidas, não vejo razão para não acarinharmos, patrioticamente, a ideia de uma iniciativa de angariação de fundos para obtermos a nossa bomba atómica. Até pode ser que consigamos comprar uma mais baratinha através da Internet, com garantia de manutenção gratuita contra defeitos de fabrico, o que nos livraria de despesas adicionais, tais como uma explosão acidental, por exemplo.
Com uma arma assim, tão destruidora, acabava-se logo com os repontões do costume. Quem se portasse mal ia logo corrido à bomba atómica, fosse cá dentro ou lá fora!
Vamos lá amadurecer a ideia da nossa bombinha atómica, "faxavor", ok?
Agora, com tantos confinamentos, até temos mais tempo para reflectir...

20.01.21

CONTRIBUIÇÃO PARA A DECLARAÇÃO UNIVERSAL DO DOENTE PORTUGUÊS


João Brito

saúde.jpg

É claro que ao abordar um assunto desta natureza tão delicada, ademais em tempo pandémico, as pessoas podem ficar, de um modo geral, com a ideia irreflectida de que a minha perspectiva implica imediata rejeição sociocultural subjacente, quiçá adjacente, dada a proximidade entre si. Ora, na minha modesta opinião, isso é mais um tabu e não me perguntem porquê porque não sei. Mas vamos ao que interessa:
Se todos os cidadãos, independentemente do género, cor, ideologia, paixão clubística, credo, orientação sexual e outras orientações, têm o direito inalienável e até, mesmo, constitucional à saúde, pergunto: por obra e graça de quem, é que não podem escolher a opção de adoecer? Não será, também, um direito de cidadania inalienável?
Entenda-se por adoecer, a prova cabal - não confundir com cabala - e sintomatológica que, como sabem, diz respeito à sintomatologia (esta é de la Palice, ou la Palisse, como quiserem) de estados de saúde reconhecidos internacionalmente como doença.
Portanto, deixo aqui algumas sugestões, ou propostas. Discutíveis, certamente, mas presumo que com alguma pertinência em face da situação em que se encontra a saúde em Portugal desde tempos imemoriais. No fundo, penso que poderá ser uma achega para agradar a todos de um modo geral e a alguns de um modo particular; a ordem dos factores é arbitrária. Por conseguinte, distribuamos o mal pelas aldeias que bem precisadas estão:
 
Proposta nº1: À semelhança de todos os cidadãos com direito à saúde, os cidadãos com direito à doença devem ter direito a uma cama e enfatizo: sem distinção de género, cor, ideologia, paixão clubística, credo, orientação sexual, et cetera.
Se não houver camas suficientes, os cidadãos doentes têm direito a permanecer numa maca em qualquer lugar de um estabelecimento hospitalar público, desde que não obstruam o caminho. Os corredores, regra geral, são a solução mais adequada.

Proposta nº 2: Os cidadãos com direito à doença têm o dever de impor a cessação da isenção do pagamento de taxas moderadoras no acesso às prestações de doença. E mais: Devem exigir, através dos seus subsistemas de assistência à doença, se estes não forem à falência, que as taxas moderadoras, o internamento e todas as prestações implícitas aumentem regularmente no início de cada estação do ano, sendo que o referido aumento deverá ser superior em 10 por cento ao valor da inflação trimestral anterior; seja ano comum, ou bissexto. Este último com 366 dias, como facilmente inferiram.
Desse modo, a sobretaxa que sobrevem à taxa de 10 por cento, podia reverter a favor de um fundo (ou fundação, como queiram - olhem, por exemplo, a favor da fundação Champô Limão, porque não?!) destinado a dar um penso a cada deputado da Assembleia da República que se oponha a esta extra...ordinária ideia. Ninguém está interessado em sustentar gajada desta que transpire sinais preocupantes de saúde por todos os poros!

Proposta nº3: Todos os cidadãos doentes têm o direito de esperar, pelo menos um ano, por uma operação à vesícula (menciono a vesícula a título de demonstração; pode ser outro órgão qualquer, desde que dê chatices a sério), mesmo que essa espera lhes cause inchaços, gases, enjoos, tonturas, dores nas costas, hálito fétido, icterícia e outros sintomas associados. São os efeitos normais de uma vesícula estragada. Contudo, se ultrapassarem o prazo de espera para além dos cinco anos não stressem, pois o fim está próximo.
Devido à actual crise económica e social (vulgo efeitos colaterais do "novo coronavírus") - digo actual porque já houve "bué" crises em Portugal - e à conjuntura planetária fortemente desfavorável (perguntem à astróloga Maia), a utilização de meios médicos complementares que, como sabem, vêm a seguir aos meios médicos elementares, devia ser fortemente regulamentada por forma a evitar maus usos por parte de alguns doentes, nomeadamente os do SNS, esses tesos do caraças, sempre de mão estendida, mendigando cuidados de saúde que não estão ao alcance de todos, naturalmente!
Não nos esqueçamos que sem doentes não há médicos, logo os doentes são a espinha dorsal da classe médica, n'é verdade?

Proposta nº 4: Os cidadãos com direito à doença têm o dever cívico de abandonar qualquer instalação hospitalar imediatamente, sem prejuízo da medicação a que estiverem sujeitos, a fim de abrirem vagas para outros doentes. Inclusive os doentes que forem submetidos a operações de peito aberto, ou qualquer outra coisa aberta. Devem sair rapidamente após terem sido suturados. Os hospitais públicos não são hotéis, que diabo!

E pronto; penso que a minha ideia tem pernas para andar, mesmo que sejam mancas. Uma coisa é certa: o primeiro objectivo foi concretizado há uma porrada de tempo, ou seja: aumentar o número de doentes em Portugal.
O segundo é ambicioso, mas não é impossível: transformar o nosso país, num lugar inóspito e, naturalmente, doentio. Muitos ministros da saúde desempenharam um papel importante na consolidação deste objectivo, salvo uma, ou outra vergonhosa excepção, nomeadamente o "pai" do Serviço Nacional de Saúde, António Arnaut que nunca devia ter nascido, esse grande malandro!

08.01.21

COMO VAI A CULTURA, ZÉ?


João Brito

como vai a cultura zé.jpg

Bom, na literatura e ensaio, o ano de 2021 talvez nos traga boas surpresas. Uma delas pode vir a tornar-se quase uma bomba no meio literário nacional. Segundo alguns estudiosos da obra pessoana, estarão por revelar mais 27 heterónimos de Fernando Pessoa, entre os quais saliento dois em quirguistanês e quinze que o poeta não usou em vida.
Os especialistas chegaram a este lindo resultado depois de pesquisas arqueológicas no ano da morte de Ricardo Reis que se presume ter acontecido ao entardecer.
Ao seu excelente trabalho de investigação, deve-se, também, a exumação de três lenços de linho lindamente bordados e em muito bom estado de conservação, dez gramas de rapé, ainda consumível, duas peúgas desirmanadas, uma delas muito puída, conservando o cheiro das pústulas do "pé de atleta" de que o poeta padecia e, por último, um papel amarelecido pelo tempo, com um rabisco de duas estrofes do poema Fragmentação do "Eu" Muito, que se pensa ter sido escrito em cima do joelho, num momento de negação do próprio "eu", e que a seguir transcrevo.
Convém relembrar os conhecedores do legado de Pessoa que esta composição poética manuscrita, pertence ao grupo original e não àquele que é dado a ler aos putos, actualmente, no décimo segundo ano (?).
Pensa-se que terá sido escrita pelo Martinho da Arcada, num instante de exaltação do ego de Álvaro de Campos, embora careça de confirmação do Instituto de Estudos Sobre o Modernismo, nomeadamente sobre o conhecimento da existência deste verdadeiro achado na obra édita do poeta, a qual, a meu ver, seria inédita, por muito contraditório que isto possa parecer.
Eis o que Alberto Caeiro escrevinhou, numa das raras ocasiões de excitação espiritual, quase alucinante, e que hoje parece constituir uma raridade literária.
A talhe de foice, peço desculpa por algumas alterações morfológicas e sintáticas que, eventualmente, possa ter introduzido aqui, mas penso que, em poesia, vale tudo menos arrancar olhos, como disse alguém cujo nome já se me varreu:
Uma vez amei e senti-me tão baboso q'até julguei que m'amariam, vejam bem!
Mas não fui amado, porra!
Não fui amado por uma única grande e exclusiva razão:
É que não 'tava calhado, q'é que querem?
Quem dera que eu fosse o pó da estrada, catano!
Vejam lá que, ao entardecer, acordo de noite e exclamo: Ah, onde estou?
Deste modo ou daquele modo, seja acordado, ou a dormir.
Sim, já tenho acordado a dormir. Acreditem q'é verdade!
Contudo, começo a conhecer-me e acho que não existo.
No concernente ao teatro, no dia 24 deste mês, se não houver confinamento geral para este evento, como tudo leva a crer, não obstante o Professor Marcelo ter acusado positivo à Covid-19, o Teatro Nacional Dona Maria II, levará à cena a tragicomédia "Presidenciais", de autor anónimo, contemporâneo. Antevê-se que esta peça venha a constituir um importante sucesso de bilheteira, conhecendo-se, de antemão, o seu desfecho. Vamos esperar para ver, se não morrermos antes. Uma coisa é certa: os habituais críticos já tecem cobras e lagartos antes da ante-estreia. Sempre os mesmos!
E, por agora, é tudo. Mas, antes de terminar, deixem-me dizer mais uma coisa: é que até posso estar muito enganado, mas, salvo raras e desonrosas excepções, e a fazer jus a esta pequena abordagem, a nossa cultura parece rejubilar de saúde...
Em próximo artigo divagarei sobre outras áreas culturais não menos relevantes. Façam o favor de se sentar.