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TROIKAVÍRUS SPECTRUM

por João Brito, em 14.06.20

troikavírus.jpg

Preparemo-nos para os novos "paradigmas" que aí vêm e outros não tão novos, dado que ainda se conservam frescos nas nossas memórias. Não nas de toda a gente, evidentemente, pois, nestes "acontecimentos inopinados", o piorzinho sobra sempre para os mais fraquinhos. E os mais fraquinhos são sempre aqueles e aquelas que tiveram e têm de emigrar, saindo da sua "zona de conforto"; dos que, permanecendo em Portugal, ficaram no desemprego (parece que, desta feita, com números acrescidos e com a agravante de não poderem sair do país) e, naturalmente, dos que dependendo dos proventos do seu trabalho ou pensões de reforma, viram os seus rendimentos substancialmente reduzidos, os subsídios cortados ou diluídos em "manhosos" duodécimos pelos quais o seu dinheirinho se evaporou por via da aplicação de taxas, sobretaxas, subtaxas, et cetera.
Aconteceu durante o "governo" da tal troika, com o beneplácito régio dos Miguéis de Vasconcelos deste pardieiro à beira-mar plantado e penso que vai acontecer a breve trecho, não obstante o senhor Costa, sem a aprovação do senhor Mário Centeno, garantir a pés juntos que não vai haver austeridade.
O seu antecessor, em discurso eleitoralista, antes da queda do Sócrates, outro traste que espero que a história esqueça, também jurava a pés juntos que não fazia sentido impor mais sacrifícios aos portugueses, mudando mais tarde o palavreado, conforme as conveniências, alegando que tais sacrifícios eram para não hipotecar o futuro do país.
Se a coisa der para o torto ou seja: se não houver novo "Plano Marshall" e cada um continuar a coçar para dentro, vamos ter de gramar a frase recorrente: "É para não hipotecar o futuro dos nossos filhos e netos, pá!" .
Isto do "plano de recuperação de 750 mil milhões de euros - 250 mil milhões para continuar a sobreendividar as economias mais frágeis, como a nossa, já está de caras que nos vai custar muito caro ou melhor: mais caro. Coitados dos nossos filhos, netos, bisnetos, trinetos, tetranetos e por aí adiante!
É o nosso fado... 
 

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CAMÕES

por João Brito, em 10.06.20
Primeira estrofe do Canto I, dos Lusíadas:
 

camões2.jpg

As armas e os Barões assinalados,
(Porém, jamais apanhados),
Que da Ocidental praia Lusitana
(Sumiram com toda a grana)
Por mares nunca de antes navegados
(Submergiram e não foram achados)
Passaram ainda além da Taprobana
(Bermudas, Granada e Guiana)
Em perigos e guerras esforçados
(Por avara riqueza se viram ousados)
Mais do que prometia a força humana,
(Todavia, exaltando a mente insana)
E entre gente remota edificaram
(Com mais valias que daqui levaram)
Novo Reino, que tanto sublimaram,
(Em édenes que alcançaram)
 
Nota breve sobre o olho de Camões: sei que, segundo reza a história, o poeta perdeu o olho direito numa peleja (há quem sustente a tese de que foi o esquerdo e ao jogo). Todavia, deixo essas conjecturas ao vosso juízo a priori ou a posteriori; é igual ao litro.

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camões2.jpg

Como hoje se celebra uma efeméride muito importante para a nossa História Pátria – se você não sabe, tinha obrigação de saber – não quero deixar de me associar ao evento, com o meu modesto contributo, pedindo, desde já, desculpa ao Professor José Mattoso, pelos eventuais anacronismos ou imprecisões históricas, habituais.
Depois deste pequeno preâmbulo, prossigamos a narrativa:
A sua origem (a da frase "vai chatear o Camões" e não a do vulgarismo, pois, este último perde-se na poeira do tempo) remonta ao século XVI, pouco antes da morte de Luís Vaz de Camões que, como se sabe, morreu nas masmorras do Castelo de São Jorge. É verdade; também me custou a acreditar!
O ano da morte do poeta é incerto, dado que existem três versões contraditórias: uma assegura que foi em dez de Junho de 1579, a outra diz que foi em 11 de Julho de 1580 e ainda há uma última que jura a pés juntos que foi no ano da morte de Ricardo Reis. Gerou-se aqui um grande debate que se tem perpetuado ao longo do tempo e que, naturalmente, nos causa alguma perplexidade, sendo que o caso não é para menos, como é fácil de depreender.
Sabe-se, isso sim, que Camões expirou o último suspiro numa enxovia do castelo, doente, abandonado pelos amigos, desgostoso com o desaparecimento do Rei Dom Sebastião em Alcácer-Quibir e, sobretudo, com a traição da fidalguia à Pátria por não ter oferecido resistência à ocupação castelhana. Aliás, outra atitude não seria de esperar da fidalguia. Ainda hoje é uma acomodada e pensa que tem sangue azul, imagine-se! Mas isso dava outra estória e, desculpem lá, mas desta vez não posso divagar senão esqueço-me do que vem a seguir. Portanto, adiante:
Conta-se que os carcereiros achavam muita piada às declamações poéticas do nosso "Homero", nomeadamente à exaltação e veemência que imprimia às suas récitas.
Os patetas escarneciam daquele velho decrépito(*) e zarolho que ousara escrever um poema épico que ninguém entendia. Com efeito, a malta era muito atrasadinha; já nesses tempos, louvado seja Deus!
A profissão de carcereiro também não exigia esforço intelectual, é preciso dizê-lo. Contudo, era muito chata e nem todos tinham estômago para abraçar a carreira. Por conseguinte, só os tolos é que aceitavam aquele trabalho.
Luís Vaz era, à altura, o único residente nas masmorras do Castelo de São Jorge, situação muito estranha porque, com tanto bandido à solta, não se compreendia porque é que aquilo estava às moscas. Todavia, prometo explicar a razão de tal fenómeno lá mais para a frente se não me esquecer.
De facto, os guardas andavam às moscas, não sabendo como ocupar o tempo. Assim, antes que ficassem com a mosca, bebiam zurrapa; jogavam à lerpa; à vermelhinha; ao montinho; à bisca delambida; contavam anedotas do Cavaco; falavam de putas e pouco mais. Ser carcereiro era um grande enfado e, quando o aborrecimento se tornava insuportável e já torravam a paciência uns aos outros, havia sempre um parvo que dizia para outro: «Olha, vai chatear o Camões!»
Assim se entretinham, quando não havia mais nada para fazer ou conversar, maltratando o desgraçado das maneiras mais torpes, inclusive roubando-lhe a pala que usava sobre a cavidade ocular, onde outrora existia um olho.
A propósito da inexistência do olho, segundo testemunhas oculares (testemunhas com óculos), pouco credíveis, conta-se que o havia perdido num jogo de Poker, no Grand Lisboa Casino. Daí ainda ser usual, em Macau, dizer-se que "Camões perdeu o olho por dez patacas".
A título de curiosidade, as patacas eram moedas que cresciam numa árvore com o mesmo nome (só para quem não sabe).
Gozavam, também, com um colar de louros, já muito ressequido, que ainda conservava religiosamente, mercê de um doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Coimbra, fruto da sua dedicação fervorosa às praxes académicas e a outras notáveis participações.
Conta-se que o catre de Luís Vaz era um antro cheio de tudo quanto possamos imaginar, digno de um cenário lúgubre, repleto de imundície e putrescência.
Por muito inverosímil que se vos afigure tal ambiente, também não o deveis rejeitar totalmente porque algumas das coisas que aqui vos relato devem ter sido verdadeiras. No entanto, digo-o com alguma reserva. Mas, prosseguindo:
Fica-se sem saber, ao certo, se o nosso maior Poeta sofreu grandes tormentos com as vilezas dos insanos carcereiros; os indícios levam a crer que sim. O que se sabe, com exactidão, é que ele ficava pior que uma barata quando o obrigavam a dividir as orações do canto V dos Lusíadas. Esse, para ele, era, literalmente, o seu Oceanus Procellarum (segundo o tradutor do Google que eu, de latim, pesco zero)!
Para rematar isto com alguma concisão histórica e, por conseguinte, com alguma (não muita) seriedade, dizer que Camões se aguentou nas canetas até se ir abaixo delas, com Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal) a instalar-se, de pedra e cal, no paço.
Mas, importante para a compreensão da alma e da obra do poeta e perpetuar a sua memória, é que foi devido à sua condição de prisioneiro que nasceu a tal frase que se tornou muito comum no quotidiano dos portugueses e, como o saber não ocupa lugar, aqui fica mais uma contribuição pessoal, sem fins lucrativos, para a divulgação da nossa história que anda tão desarraigada dos nossos conhecimentos.
(*) 56 anos era considerada uma idade muito avançada para a época.

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