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A PRIMA FELISMINA

por João Brito, em 07.03.19

a prima felismina 3.jpg

Minha querida prima Honorina, espero que estejas bem de saúde, na companhia dos teus que a gente cá vai indo conforme a graça de Deus.
Hoje, escrevo-te muito à pressa porque tenho a minha cozinha num autêntico rebuliço! Se visses, até te assustavas, filha!
Contudo, estou tão entusiasmada e, ao mesmo tempo, tão comovida que tinha de partilhar esta novidade contigo:
Trata-se dos estudos do meu Pedrinho. É que não caibo em mim de contente com as notas dele. Então, não é que o raio do cachopo teve "um" na média geral?! Parece que é a melhor nota que dão agora. No nosso tempo não era nada assim, lembras-te? Modernices, é o que é!
Também não admira que o meu Pedrinho tenha tido uma média tão elevada porque a escola onde anda obteve, este ano, a melhor classificação de sempre no "ranking" das melhores escolas oficiais do país. Em Junho já dispunha da quase totalidade dos professores e, por sinal, pessoas muito competentes, diga-se de passagem!
O meu Pedrinho contou-me que até tem um professor de inglês, um engenheiro formado em Ciências Ocultas na Sorbonne, vê lá tu! Como é que eu não hei-de estar tão satisfeita, prima, diz-me lá!
Nos números, desembaraça-se muito bem! De tal maneira que, agora, vai a uma coisa chamada "Paraolimpíadas da Matemática". Parece que é só para crianças que sofrem de discalculia, seja lá o que isso for, prima, que eu de discalculia só percebo de cálculos, infelizmente! Ai, o meu Horácio, coitadinho, padece tanto disso que nem tu calculas! Ainda um dia destes urinou uma pedra que parecia uma bola de ping pong, filha! O meu homem, c'os olhos fora das órbitas, até parecia um doido quando m'a mostrou, credo! Estive para fugir! O senhor doutor bem o aconselha a beber montes de água, mas ele, feito nhurro, prefere bagaço e eu não posso fazer nada, n'é?!
Mas continuando:
Mesmo assim, o meu Pedrinho conseguiu "dois", superando a média. Pra mim, o miúdo é um sobredotado!
De maneira que isto enche-nos também de muito orgulho, como deves imaginar. Olha, cada um é para o que nasce, prontos!
Em português é que o meu menino tem tido mais dificuldades. O professor diz que lhe falta conversação. Também, a bem dizer, se não fossem as telenovelas, não se aprendia nada, filha!
Olha, não vamos mais longe! Com as telenovelas da SIC, sempre vai aprendendo mais alguma coisinha, mas, por outro lado, é uma má influência, prima, sabes lá! Então, agora, anda levado da breca! Vê lá tu que, feito malvado, partiu a loiça toda e até pendurou o gato no estendal pelo pescoço! Apanhou-nos distraídos, foi o que foi! Achámos que o pobrezinho deve ter estrebuchado um bocadinho antes de morrer, mas o que é que podíamos fazer se o mal já estava feito, n'é?
Olha, pronto, tivemos muita pena do bicho e lá fizemos uma campazinha muito singela, no quintal para o meu Pedrinho se lembrar que não se fazem maldades destas aos animaizinhos indefesos.
Às vezes, ganho cismas e acho que o rapaz tem o diabo no corpo, prima! Até já pensei em levá-lo ao senhor prior para lhe fazer um esconjuro, sei lá! A dona Ermelinda do 2º direito, também dá umas consultas para enxotar o carocho, mas acho que ela é que é uma grande carocha. Estas coisas passam-me muito pela caxamola, sabes?
Ao contrário das minhas ralações com a educação do menino, o meu Horácio desvaloriza e incha de vaidade. Já tem desabafado que ele é o retrato vivo do avô! Se calhar deve ter herdado alguma coisinha do meu Horácio, vá-se lá saber. Isto sem ter a certezinha absoluta de que o meu Pedrinho seja nosso neto, pois fazem-se tantas trocas nas maternidades, filha! Mas, lá que tem parecenças, no feitio, com o meu Horácio, não o posso negar; raio do moço!
Repara que o meu Pedrinho tem tanta imaginação ou tão pouca que andou a treinar cirurgia plástica nas galinhas da Dona Conceição! Como as pobrezinhas andam sempre à solta no pátio, ele não foi de intrigas e fez-lhes umas operações a custo zero. É claro que, como o menino tem pouca prática destas operações, andámos a comer canja durante um mês, ao almoço e ao jantar. Olha, do mal o menos porque sempre ouvi dizer que cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, desde que não tenhamos o caldo entornado, não é, prima?
Mas digo-te que o moço tomou-lhe o gosto e já dá consultas de borla à vizinhança, só pelo prazer que tem em cortar! Agora, toda a gente aqui da rua quer ficar sem carquilhas, vê tu bem! A dona Natércia do rés-do-chão, aquela senhora com barbas, sabes, até ficou um bocadinho mais composta depois de uma operação facial. Também não deve nada à beleza, benza-a Deus Nosso Senhor! Porém, o meu Pedrinho, desta vez, descuidou-se um bocadinho com o bisturi e deixou-lhe uma orelha mais acima e a outra mais abaixo. Nestas coisas, prima, ninguém é perfeito. Mais a mais sendo curioso.
Aqui há dias, a avó Felisbela teve mais uma daquelas crises chatas de logomania e o meu Pedrinho não esteve com meias medidas: besuntou-lhe a boca com "Super Cola 3" (passe a publicidade), que era o que havia mais à mão, e foi remédio santo, filha! É preciso muita paciência para aturar a velha, tu nem calculas! Imagina que o meu Horácio, às vezes, fica de tal modo transtornado ao ponto de pensar em largá-la nas urgências do Hospital de São José! Tu já viste como ela nos transtorna, filha?!
É por estas e outras que o meu Horácio se passa dos carretos, sai de casa e está temporadas sem pôr cá os pés, sabes tu?! Depois mete-se em alhadas e isso deixa-me muito ralada porque não são exemplos que se dêem a uma criança!
Bem, vou terminar por aqui, prima, desculpa lá! Tenho de acabar de fritar o resto das pataniscas e rissóis. Estou a vender salgados para fora porque o meu Horácio só dá despesas e demais chatices e, a somar a tudo isso, já não tem direito ao RSI. Mais a mais, a cabra da minha filha só sai do chilindró lá para meados do ano que vem. Como vês, tenho de me fazer à vida! Para ajudar à festa, a crise continua. Aliás, prima, a crise nunca acabou!
Recebe um beijo desta tua prima que te estima e s'assina,
Felismina

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DITO E ESCRITO

por João Brito, em 05.03.19

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"O adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem.
Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte.
Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal (Código Penal de 1886, artigo 372º.) punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando sua mulher em adultério, nesse acto a matasse.
O adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e, por isso, vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher".
Dito e escrito pelo juiz Neto de Moura em julgamento de um caso de violência doméstica.
A decisão do tribunal colectivo, na circunstância em que as frases foram articuladas e que, provavelmente, no futuro, serão referenciadas como curiosidades judiciais bizarras, foi objecto de exame, por recurso apresentado pelo Ministério Público que argumentava contra as penas suspensas aplicadas ao ex-marido de uma vítima de violência doméstica, no final de Junho de 2015,​ e a outro homem, cúmplice no acto de agressão, com quem esta mantivera uma relação extraconjugal, pouco antes de se separarem.
Consta que foi o último indivíduo, o ex-amante, com a conivência do ex-marido, quem sequestrou a vítima no seu próprio carro e o contactou depois.
O Tribunal de Felgueiras deu como provado que o antigo amante segurava a mulher enquanto o ex-marido, "empunhando um pau comprido com a ponta arredondada, onde se encontravam colocados pregos", lhe bateu primeiro na cabeça e, depois, em diversas partes do corpo provocando-lhe lesões.
O ex-marido foi condenado a um ano e três meses de pena de prisão suspensa e o antigo amante apanhou um ano de pena de prisão suspensa, além de uma multa.
Acórdão da Relação do Porto, de Outubro de 2017, assinado por dois juízes, um dos quais, Neto de Moura.
Um caso insólito, e não exclusivo, protagonizado por este juiz, que parece copiado do habitual cenário surrealista de algumas sociedades (penso que não é preciso nomeá-las), salvaguardadas as devidas distâncias culturais, onde a discussão em torno da emancipação das mulheres é tabu e as tentativas de resistência contra o domínio patriarcal são sujeitas a "castigos exemplares".
A sua alegada reincidência, com interpretações pessoais (citou, nesta sentença, a Bíblia e Código Penal de 1886!) em tudo dissemelhantes da actual Lei, onde a palavra "adultério" é omissa*, nomeadamente o da mulher de Felgueiras, atrás descrito, revela sintomas de recalcamento. Não me causaria estranheza que houvesse aqui uma situação (há evidências aparentes) de inibição motivada por abuso de autoridade (materna?) durante a infância. E mais não digo porque não sou psicanalista.
Oxalá, o Supremo Tribunal de Justiça, aquiesça, desta vez, ao seu suposto pedido de escusa (reportado pela imprensa) para estes casos. É o mínimo que se pode desejar, numa sociedade em que a igualdade de género é contemplada na lei, com os desequilíbrios consabidos...
(*) Em Portugal, no actual Código Penal, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 400/82, de 23 de Setembro a palavra adultério não é mencionada numa única passagem. Já no actual Código Civil faz-se apenas referência ao adultério aquando da existência de heranças e respectivos testamentos e é referido no art.º 2196.º que anula a disposição a favor da pessoa com quem o testador casado cometeu adultério.
Fonte: Wikipédia
Nota: O que é feito deste juiz? E, já agora, outros da sua índole?

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