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SEMPRE FOI ASSIM...

por João Brito, em 02.09.18

"Sempre foi assim" é uma expressão evasiva. Cheira a conformismo e, por conseguinte, falta de entusiasmo. Até porque corta drasticamente todas as esperanças. É um argumento oposto à perspectiva de que "para melhor, está bem...; para pior já basta assim", recorrendo novamente a uma paráfrase.
Quando não é exactamente assim e alguma coisa muda, pauta-se, diria quase sempre, pela falta de equilíbrio. Explicando melhor e recorrendo agora a um provérbio acerbo: "Uns comem os figos, a outros rebenta-lhes a boca"...
Naturalmente que se está melhor hoje do que dantes, é indesmentível; aliás, no meu tempo, o feijão era a cinco tostões o litro! Com efeito, houve evolução, mas continua muito abaixo das expectativas. Prometem-se mundos e fundos a torto e a direito, é humano. São promessas criadas pelos vendedores de banha da cobra do costume, uns línguas de pau a que a generalidade já não liga, sabendo-se que são vãs.
Assim, e porque as mudanças são sempre tardias e insuficientes, os pobres subsistem, um pouco menos pobres, e os ricos ficam ligeiramente mais ricos, a grosso modo. Está tudo relacionado com as "crises", diz a gente que entende muito destas coisas e sustenta que a pobreza é um facto social inevitável. Outra gente vai mais longe e afirma que a pobreza é uma consequência da busca pelo desenvolvimento e progresso...
Acho que a liberdade, se calhar, não permite que a pobreza seja erradicada porque ser pobre parece ser um estatuto adquirido à nascença, uma espécie de estigma que não se pode extirpar. Nasce-se pobre, morre-se pobre. A mesma premissa também pode ser válida para os ricos. Pelos vistos, trata-se, aqui, de duas disposições estatutárias que determinam 'direitos' adquiridos. Do mesmo modo, pode-se nascer pobre e morrer rico e vice-versa, mas isso será assunto para um artigo exclusivo.
Ainda sou do tempo em que um pobre estava proibido de assumir publicamente o seu estado, pelo menos em locais muito bem frequentados. A pena era, invariavelmente, a Mitra. Não a mitra pontifical, usada pelos prelados de algumas igrejas cristãs, mas o albergue para onde ia, temporariamente, se fosse apanhado a mendigar na via pública. Pelo menos, penso que não lhe faltaria uma sopinha para ficar mais aconchegado. Em teoria...
Passadas que são algumas gerações e vivendo-se, agora, numa sociedade "democrática", a substância da pobreza de hoje não está a ser muito diferente de outras que se julgavam suprimidas do quotidiano. Pode-se dizer, usando um eufemismo, que é uma substância mais discreta, até "envergonhada"...
Pela lógica do poder do dinheiro (plutocracia), cuja ideia e prática parecem dominar a sociedade global, o objectivo (com bons resultados para os detentores desse poder) é reduzir as pessoas a mão de obra mal paga e sem direitos. Parece que se está a assistir a um retrocesso civilizacional e já não há vontade nem força para contrariar este trágico recuo. É uma lógica tão cega e insensível como um processo meramente físico, coisa automática e destituída de humanidade.
A ética social deixou de coexistir com um certo "capitalismo humanista"; se é que alguma vez se respeitou tal conceito nos sistemas supostamente democráticos. Não quero dizer, com isto, que os regimes alegadamente socialistas foram um sucesso em termos de equidade social, mas, outro sim, pensar que a discussão em torno de antagonismos ideológicos, na minha humilde opinião, já não faz sentido para o comum dos mortais (não comprometido com a política e os negócios - a simbiose perfeita), se me permitem algum cinismo nesta afirmação...
Com base no novo (velho) aforismo de "um por um e Deus por todos" ou mais por uns do que por outros, é possível viver numa ilha rodeada por um mar de pobreza desde que ele não encapele, transpondo os seus limites. 
Um senhor de provecta idade - já falecido -  e, naturalmente, muita vivência e calejo, com o qual tive alguns desabafos, respondeu, um dia, a uma pergunta que lhe fiz sobre o que pensava acerca de uma sociedade mais justa e, naturalmente, equilibrada: "Nem que venha Deus!" Ele que até era ateu.

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