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A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

22.06.17

AMOR ANÓNIMO EM DOIS ACTOS


João Brito

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Acto primeiro:
Sempre ouvi dizer que o amor quando nasce é para todos. Ou, pelo menos, pensava que era assim até ao dia em que a vi no meio da multidão e a desejei com toda a força do meu ser. Aliás, até me superei!
Aí, tive a percepção exacta de que aquela velha máxima nem sempre se aplicava e foi o que aconteceu durante aquele momento sublime tão ardentemente desejado. Nunca tivera uma visão assim tão doce e deslumbrante. Uma visão só digna de quem acredita em milagres, ainda que não fosse o meu caso. Todavia, naquele dia o amor tinha nascido só para mim, estão a ver? É o tal amor ou paixão assolapada q'é uma coisa tramada.
Porém, independentemente de acreditar ou não, e com todo o respeito que me merece a gente pia que acredita piamente em intervenções divinas, uma coisa é certa: por muito que nos amemos, sobra sempre um bocadinho de amor para compartilhar com outras pessoas; e foi como se uma voz interior me perguntasse se não havia um lugarzinho a mais no meu coração para outra pessoa, além de mim.
Aquele "brilhozinho nos olhos", pá, vi logo que era a "number one" e não fui de modas: dei-lhe, incondicionalmente, "vinte valores" e desejei que fosse "um treze no totobola".
No entanto - maldita frase - ,tímido militante desde o primeiro vagido, ficou claro que só me restava sonhar com ela, pois não "bebemos um copo" e tampouco "fizemos o quatro e pintámos o sete".
Eh pá, prontos, pensava que, para mim, o amor também não ia tirar férias a partir daquele acontecimento mágico, muito menos no pico da "sexy-season" que é quando a malta tem mais ponta para fazer meninos. Contudo, enganei-me redondamente; o amor não quis nada comigo e garanto-vos que havia espaço suficiente para dois.
Agora, por 'mor de Deus, não me venham com essas tretas das hormonas ou das feromonas ou algo assim parecido! Posso ser um ignorante nestas coisas, mas alto lá porque o que é demais é moléstia!
Dizem também que o amor não escolhe idades que é como quem diz "de pequenino cresce o pepino". OK, até admito que a diferença de alturas era abismal, mas, mesmo assim, não me importava. Seria ela a cingir-me o pescoço com os seus braços, porque não? O amor quebra todas as barreiras, não é o que dizem?...
Que foi uma coisa esquisita, isso é insofismável! Algo que, curiosamente, nunca me tinha acontecido. Parecia, assim, uma dor que sobe pela coluna acima e depois desce pela coluna abaixo. O tal "fogo que arde sem se ver". Para uns, talvez, um fogo fátuo, mas para mim seria eterno. Assim o destino ou o acaso, tivessem querido. Contudo, só até durar, sublinho...

Acto segundo:
Aqui estou, longe do acto primeiro, imbuído de uma tristeza infinda. Se calhar, o amor é assim; é até "o apagar da velha chama", sei lá! É o amor, prontos, pá, q'é que querem?!
Já alguém dizia que o amor é quando a gente quer o que a gente sonha. Só que, não obstante o sonho comandar a vida, resta uma frustração do caraças porque há amores e amores, uns de perdição, outros impossíveis e alguns fodidos - como disse aquele gajo que escreve uns livritos catitas, cujo nome já se me varreu. Ainda há os perfeitos, mas até esses têm defeitos. Paradoxal, n'é? Tudo águas revoltas da paixão, é o que é!
Cada um tem o amor que merece, apesar de achar que tem direito a uma dose suplementar. É a reacção natural, grande parte das vezes egoísta, que magoa a malta, sempre à procura de um retorno. Estranha forma de amar, mas é assim, olhem, que se lixe!...
Por outro lado, a contradição também é válida; ser contraditório faz parte da natureza humana. São também inatas a insatisfação e a procura do amor ideal, aquele amor que só acontece na ficção com "final feliz" (não confundir com idêntica expressão, usada noutro contexto).
Tornei a dispersar-me, desculpem lá..., ah, já apanhei o fio solto! Adiante:
Parece-me, embora sob consulta, que não se pode ter um amor como o nosso, duas vezes. Quer dizer, até há quem tenha "bué" de amores, mas, desculpem lá, não é a mesma coisa; não há amor como o primeiro! Sabe Deus quanto amei aquela mulher, embora ela nunca tivesse sabido e tampouco sonhado!
Amar e ser amado é complicado. Na solidão triste do anonimato apenas resta a esperança de o amor se vir um dia, quem sabe, a gente está sempre à espera que esse amor se venha, n'é?
Agora a sério: Pior solidão do que amar anonimamente, é a "do ser que não ama" - diz Vinicius de Moraes. Prefiro nem pensar...
E pronto, desculpem lá isto, mas este texto não me correu nada bem; está muito confuso!