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A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

29.07.16

GAMBOZINOS VERSUS POKÉMONS


João Brito

manual do caçador de gambozinos.jpg

"Pokémon, pokémon, pokémon, foda-se, o que é que vai ser a seguir, hã?!
Em qualquer lugar por onde circule, vejo uns marados e umas maradas, agarrados aos smartphones, com olhares de ganzados; até parece que estou a viver um pesadelo, caralho! 
Chego a casa e vejo os fedelhos vidrados nos smartphones; vou à leitaria do Ezequiel e já ninguém debate o resultado do último Benfica - Sporting; preferem o cabrão do pokémon.
A minha mulher desistiu de discutir comigo, por causa do pokémon - para ser sincero, devo confessar que até é um mal que vem por bem - , alguns amigos do Facebook fazem-me convites para irmos caçar o pokémon. Mas o que é que vem a ser isto? Marei de vez?!
Vou com o cão à rua e é o pokémon. Não é a primeira vez que alguns agarrados confundem o bicho com o pokémon e, para obviar chatices, saio de casa armado com a minha faca eléctrica Moulinex a pilhas (passe a publicidade), para espantar os filhos da puta.
Expliquem-me apenas, se ainda houver alguém com juízo, o que é se passa com o pokémon. Mas que merda vem a ser esta? Vão, mas é, caçar gambozinos, vão-se lá foder!"

Texto enviado para o meu correio electrónico, pelo meu vizinho Alcides Barata, pessoa de educação e ética inexcedíveis e uma fervorosa Testemunha de Jeová.

16.07.16

RIGOROSA AUDITORIA INTERNA À GENTE SÉRIA


João Brito

gente seria é outra louça!.jpeg

O Governo da República, através de um porta-voz que preferiu manter o anonimato, cobrindo o rosto, anunciou que vai realizar uma rigorosa auditoria interna no sentido de desmascarar a corrupção e a pouca vergonha que alastra pela gente séria.
Concluiu o plenário ministerial que toda a sua actividade - com realce para a económica e financeira - torna de jure, de facto e fisicamente impossível que a gente séria sobreviva com a dignidade, os luxos e os papos secos com torresmos que teima em alardear.
A mesma fonte, que desta vez só mostrou a ponta do nariz pois estava a sentir falta de ar, afiançou, pouco segura, que algumas pessoas com cargos ministeriais estavam tão convencidas da justeza da lei, que se sentiram na obrigação moral de revelar ao plenário diversas trafulhices e pecadilhos variados que praticaram e continuam a praticar, para ganharem mais uns cobres, ou facilitarem a vida aos parentes e amigos, respectivamente por ordem hierárquica. Vejam, vocês, por exemplo, alguns casos como os daquele ministro e daquela ministra, ou até o de um secretário de Estado do anterior Governo, ou até mesmo o caso de um secretário de Estado do posterior Governo. Vejam, também, o exemplo daquele ministro que alugava a casa ao seu chefe de gabinete para este mandar umas quecas com a amante e sem recibos; imaginem, só, onde é que isso já se viu?! É que, contado, ninguém acredita!
A mesma fonte, descobrindo um pouco a careca, pois começava a suar as estopinhas, revelou também que é banal os Presidentes da República cessantes oferecerem popós luxuosos aos seus sucessores, um costume que, face à vitalidade da economia e ao momento único de bem estar social, não é demais e é alegórico, pois é o carro do Senhor Presidente que diabo! Contou, ainda, que um conhecido advogado e militante sem cabelo, de um partido igualmente conhecido, nas suas inocentes viagens ao Brasil, fez uns biscates que rentabilizaram, de modo substancial, a sua, já gorda, conta bancária. No entanto, aparentemente, revela ser um homem de uma seriedade irrepreensível, não obstante ter passado umas férias injustas, sem poder sair da sua casa situada na zona nobre da capital. Ainda por cima com uma pulseira electrónica de plástico! Se fosse de ouro, vá que não vá, ainda podia oferecer a uma amiga!
A agravar a injustiça de tal pena, não pode viajar até ao outro lado do Atlântico, sob risco de ser engaiolado pela Polícia brasileira por suspeita de crime de homicídio na pessoa de uma pessoa morta que, coitadinha, já é falecida.
Até o próprio primeiro ministro deve meio ano ao barbeiro que, normalmente, lhe escanhoa a barba e trata daquele lindo penteado ondulado.
Quanto ao outro, ainda que nos pareça inverosímil, bota armadilhas para coelhos, arma costelas e ainda dispara bolinhas de chumbo contra tudo o que se mexe, até mesmo contra a sogra que ainda pestaneja.
A mesma fonte refere, ainda, tirando o pano que lhe cobria o rosto e mostrando, somente, uns óculos escuros (idênticos aos daquele cantor que, curiosamente, nunca os tira, pois alega que sofre de estigmatismo agudo), o caso daquele ministro que veio a público confessar (depois de acusar um secretário de Estado e um subsecretário de Estado de lhe terem roubado um telemóvel e um "laptop", respectivamente o secretário de Estado e o subsecretário de Estado) que o filho era um agarrado, um "malcriadão do caralho" e batia na mãe. Ora, digam lá se isto não era escusado! São mesmo merdas sem trabelho, ou, parafraseando um amigo, sem pés nem cabeça!
Perante este cenário, unanimemente reconhecido (em cinco presentes, contaram-se trinta e três votos a favor), a perplexidade dominou o plenário que se interrogou: "como é que a gente séria se desenrasca?" e "será que vai roubar para a estrada para passar despercebida?" e "se apenas quarenta ladrões andam a monte, como é que um pobre funcionário público pode sustentar a família (contando com a sogra), a amante (contando com a casa posta), o popó topo de gama da mulher (contando com o amante da mulher), o popó topo de gama da filha (contando com o namorado actual da filha), a "super bike" do filho (contando com o namorado actual do filho), a ração para o cão (contando com as incursões da cadela ciosa da vizinha que, por sinal, é muito boa), as férias na Quinta do Lago (contando com o iatezinho, os amigos e amigas), et cetera e por aí adiante.
O enumerar de tanto facto avivou as consciências mais conscientes - passe a redundância. Afinal a auto-denominada gente séria, a favor da qual o executivo não pára de se debater, ainda pratica surf em mar chão, apesar de alguns deles, designadamente secretários, queixarem-se que lhes roubam as camisas, sabendo-se, como se sabe, que não havia necessidade de se saber, nem de fazer, pois, a bem, até lhes podiam levar as calças. Mas, enfim, que se lixe, vão-se as calças, mas ficam os cintos!
Posto isto - enquanto alguém servia os presentes com uísque de Sacavém e pratinhos de amendoins com casca para testarem a potência, foi elaborado um comunicado que, pela sua linearidade e simplicidade, diz bem do enorme amor dos políticos para com o "povão" e reza assim:
"Atendendo a que o Governo está convicto dos enormes sacrifícios que, desde há largos anos, têm vindo a ser impostos aos cidadãos e cidadãs deste país, concluiu este plenário que temos vindo a ser subjugados por uma classe sinistra que nos quer convencer de que vive do trabalho honesto. Esta mesma classe que a gente designa de gente séria. Assim, o Governo da República decreta, sem efeitos retroactivos para não prejudicar direitos e regalias, adquiridos e consignados na Constituição da República:
Que seja feita uma rigorosa auditoria interna à gente séria para que o país fique a saber com que linhas se cose para que, de uma vez por todas, as pessoas não fiquem indiferentes às medidas económicas e financeiras que o Governo se vem esforçando, com muito esforço (passe a redundância), a fazer, à falta de outro entretém, ou ocupação legal mais lucrativa."