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A ÍNCLITA GERAÇÃO

por João Brito, em 19.09.22

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Olá, então, como vão esses ânimos? De mal a pior, n'é verdade? Como se não nos bastassem os efeitos da crise pandémica pela qual passámos, já estamos a levar com os (cu)laterais de outra; olhem q'isto! Bem, em abono da verdade, há que dizer que já estamos habituados a levar com elas todas, umas a seguir às outras. Por isso, quando aqueles e aquelas, de barriga cheia, nos falam de tempos difíceis que se avisinham, esboçamos um sorriso irónico, daqueles muito amarelos, e encolhemos os ombros.
Mas deixêmo-nos de lamentos e preocupações e passemos à história (não confundir com cair no esquecimento).
Passo a escrever ou passo a escrito – conforme vos aprouver – qualquer coisinha sobre a chamada "Ínclita Geração" ou "Noble Generation", só para inglês ver.
Posso garantir, a pés juntos, que não se tratou de uma "geração rasca"; antes, pelo contrário (aqui, os conceitos 'antes' e 'pelo contrário' não se me afiguram idênticos; somente próximos. Daí a minha hesitação em classificar a frase de redundante)!
Prossigamos, então, na descrição deste epíteto que é dado na História de Portugal aos filhos de Dom João I.
Ora, após a morte do rei, paizinho desta tão nobre e ilustre geração, Philippa of Lancaster, indeed Leicester, aliás Dona Filipa de Lencastre, aliás a mãezinha, subiu ao trono provisoriamente até um dos filhos, Dom Duarte, "O Mudo Sorridente", aprender a falar, tarefa de todo impossível, sabendo-se que nesses tempos recuados não existia, ainda, terapia da fala. Por outro lado – rezam as crónicas de antanho – , desde a nascença até ao último suspiro, nunca parou de sorrir. No entanto há quem sustente o contrário, enfim, vá-se lá saber.
Contudo, a mudez, como característica inata do rei Dom Duarte desde tenra idade, manifestou-se, sobremaneira, anos mais tarde, no campo legislativo. Vários historiadores crêem que já era mudo à nascença, dado que não há registo sonoro do primeiro vagido. Porém, tal convicção, sem grande profundidade, carece de ratificação científica.
Foi durante o seu reinado que foi elaborada a "Lei Mental" que nunca se chegou a saber o que era. Como era mental, nunca foi escrita nem oralizada.
Durante o reinado efémero de Dom Duarte, um dos manos, Dom Henrique, prosseguiu com o projecto megalómano de mandar erigir o Padrão dos Descobrimentos, apesar dos avisos do rei (convém referir que os avisos eram feitos, obviamente, em linguagem gestual) de que aquilo ia transformar-se num enorme mamarracho. Para não referir a brutal despesa que tal capricho representava para os cofres do tesouro que estavam nas lonas; já naquele tempo, valha-nos Deus!
É claro que tudo se recompôs temporariamente, após o descobrimento do Brasil, graças às remessas de ouro dos bandeirantes. Foi desse modo que outro mano, o Dom Manel, que sucedeu a Dom Duarte (é claro que o Dom Manel não fez parte desta nobre fraternidade, mas, por outro lado, o objectivo desta crónica não é dar lições de história, seja a quem for. Por isso só tenho de pedir desculpa ao professor Mattoso pela minha imperdoável ignorância), derreteu todo o ouro, mandando construir o Centro Cultural de Belém, ao seu estilo (manuelino), e uma fábrica de pastéis de nata mesmo ao lado, para não ficar atrás do mano.
Dom Henrique, sentindo a sua obra ofuscada pela mania das grandezas do irmão, não esteve com meias medidas e, de uma assentada, fundou a Escola Náutica de Paço de Arcos, enviando naus catrinetas por mares nunca dantes navegados. Em boa hora o fez, pois foi graças à sua visão, muito avançada para a época, e aos seus audazes capitães das naus, que foram descobertas as ilhas Berlengas; as Seixal; a Brandoa e Telheiras Sul.
No entanto, os desmandos da Ínclita Geração colocaram o tesouro do reino, novamente, numa situação periclitante, fazendo com que as agências de notação financeira baixassem o nosso nível para mais uns pontos abaixo de lixo, o que já era muito chato para os propósitos do rei que, para obviar a grave situação económica, sobrecarregava a plebe com impostos atrás de impostos, no sentido de descer a dívida pública.
Regressando a Dom Duarte: Foi no seu curto reinado que aconteceu um feito militar relevante e que ficou para os anais (atenção ao étimo da palavra anais e ao contexto onde está inserida) da nossa História: Dom Fernando, o mano caçula, cognominado de "O Mártir" (não confundir com um jihadista islâmico), na altura a residir ali para os lados dos Prazeres à Infante Santo, teve uma vontade danada de comer tângeras. Foi um desejo assim a modos muito repentino e intenso. Todavia, como não havia tângeras, nem no mercado da Ribeira, nem no de Campolide, Dom Fernando tentou persuadir o mano Dom Duarte a enviar a armada a Tânger a fim de adquirir no mercado local umas boas toneladas do citrino dos seus desejos. O rei hesitou em aceder ao pedido do irmão porque, como já tinha referido, Portugal estava novamente falido, a UE intimidava o reino com mais medidas de austeridade e claramente o, então, ministro do tesouro alemão e a "troika" ameaçavam vir por aí abaixo com os seus exércitos para pôr ordem nas contas públicas.
Para compor o ramalhete da desgraça, os estaleiros navais de Viana do Castelo, importante pólo de construção de naus catrinetas e caravelas, tinham sido vendidos a um armador grego, falido, um tal Aristóteles Conassis que se revelou um mau negócio para o reino de Portugal.
Porém, Dom Fernando, astuto como era, contra-argumentou com a velha história de que se podia aproveitar a ocasião para combater os sarracenos e dilatar a fé cristã além mar e isso convenceu Dom Duarte a consentir a expedição sem olhar a meios e despesas.
Reza a História que a "Invencível Armada" (sei que não se tratava da armada em que estão a pensar, mas deixem-me continuar que depois explico) capitulou às mãos dos "infiéis" e, para cúmulo, capturaram Dom Fernando e mandaram-no para as masmorras por causa das tosses.
Quanto aos marinheiros que restaram desta expedição inglória, uns regressaram a nado a Vila real de Santo António e outros converteram-se ao islamismo, indo engrossar as fileiras do Daesh.
Entretanto, o tempo passou e os Mouros, através da sua encarregada de negócios em Lisboa, a embaixadora Mira Omar Salgado (ainda hoje, não se sabe ao certo se era Salgado pela parte do pai ou da mãe, mas também é irrelevante para a história) exigiram a devolução de Ceuta em troca da libertação do infortunado Dom Fernando. Em face deste ultimato mourisco, as cortes reuniram-se na Quinta da Sardinha, no Pinhal de Leiria e, depois de uma valente sardinhada regada com vinho tinto rascante do Cartaxo, já muito bêbedas (as cortes, claro), decidiram que a vida de "O Mártir" não valia um avo em comparação com Ceuta.
Revanchistas, os mouros mantiveram Dom Fernando preso numa masmorra até ao final dos seus dias. Não a pão e água, tampouco a tângeras, mas a tangerinas, pois era consabida a sua intolerância intestinal às tangerinas.
É facto, embora careça de confirmação (peço desculpa pela contradição), que nos últimos dias de vida, Dom Fernando, já só ossinhos e peles, implorava a Alá que aqueles bárbaros berberes e beluínos (não confundir com beduínos) lhe dessem, ao menos, um pratinho de kebab acompanhado com arrozinho árabe. Até dispensava os talheres porque naquelas paragens sempre se comeu com as mãos e ele já se habituara aos costumes daquela gente incivilizada. Os mouros, sabendo que aquilo era tudo fita dado que Dom Fernando fincara sempre o pé a uma possível conversão à fé islâmica, martirizaram-no ainda mais, com tangerinas, tendo "O Mártir" falecido, depois de morto com tanto martírio, já Infante Santo.
Voltando, ainda, a Dom Duarte, está devidamente documentada a sua veia literária, mas também científica, legando-nos obras como – agora a sério – "Leal Conselheiro", produto profusamente ilustrado, da sua colecção iconográfica, com conselhos e orientações sobre a igualdade de género (muito à frente no seu tempo); "Livro de bem cavalgar toda a sela sem cavalo" que, como o próprio título indica, se destinava a ensinar a montar sem cavalo, trabalho que foi considerado pelos críticos literários um "best seller", não tendo merecido, imerecidamente, um prémio Nobel da Academia Sueca porque, já naquela altura, aquela cambada de incultos não ia à bola com Portugal. Finalmente, um terceiro livro que deu brado, "O Livro da Misericórdia" que é, com efeito, "O Livro da Misericórdia".
Todavia, o êxito das vendas da sua obra foi demasiadamente agitado para a sua frágil cabeça que não aguentou um esgotamento cerebral e teve morte imediata, vindo a falecer de peste numa manhã de nevoeiro em Alcácer Quibir.
E pronto; esgotou-se-me a prosa. E olhem que foi assim uma coisa repentina! Isto ia tão bem e de um momento para o outro bloqueei; que estupidez! E ando a tomar os comprimidos; faria se não os tomasse!...
Espero que tenham gostado, tanto como gostei de ter escrito acerca desta geração bestial (não confundir com besta, nada disso!)

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TEMPO

por João Brito, em 23.08.22

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Às vezes, penso se teria sido bom o tempo ter parado, antes de me ter alcançado.
Conquanto saiba que o decorrer é uma constante do tempo e o seu passar tudo mudou.
Dizem os entendidos que isto acontece de tempos a tempos e só a nós. Vem da noite dos tempos e lembra-nos, quando estamos sós, do tempo que passou.
Está escrito nos livros, que o tempo preservou, que o tempo nunca parou.
Assim, far-se-á num tempo que voou, o tempo que corre feito um louco.
Contudo, demos tempo ao tempo porque, a seu tempo, surge uma nesga de tempo pra sorrir um pouco.

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IRS

por João Brito, em 05.08.22

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O governo promete que vai envidar todos os esforços, mesmo os mais depurativos, no sentido de abolir este tão contestado imposto.
A nobre intenção do executivo poderá vir a lume brando a breve trecho.
Assim, cautelosamente, o órgão tutelar já mandou instalar extintores de incêndio, adicionais, nos corredores de São Bento.
"A actual situação económica, não sendo brilhante também não é desluzida e, para obviar algum desequilíbrio, permite, pelo menos, abolir este tributo tão impopular e, mesmo, de difícil digestão...perdão, justificação, melhor dizendo!".
Afirmação peremptória de um assessor do Ministro das Finanças, ausente na praia dos tomates, em merecido descanso estival (não confundir com festival).
"Posso acrescentar – continuou o adjunto – que grande parte dos objectivos da criação do Imposto sobre o Rendimento de pessoas Singulares (IRS) que, como é do conhecimento geral, veio substituir o Imposto Complementar (IC), também esse de má memória, foram cumpridos (pronuncie-se compridos em vez de cumpridos) e ultrapassaram, mesmo, o limite métrico da decência fiscal."
E detalhou:
"Temos um ensino de excelência; um Serviço Nacional de Saúde que ombreia com os melhores da Europa da União; hospitais de referência; serviços administrativos altamente eficientes (graças ao programa Simplex); modernas autoestradas que ligam Portugal de lés a lés; um extraordinário PIB per capita, et cetera.
Portanto, em nome do governo, declaro que é com um prazer desmedido que anunciamos aos nossos concidadãos que estamos dispostos a aliviá-los deste imposto arbitrário que absorve, a grosso modo, cerca de vinte por cento dos seus rendimentos mensais."
"Entretanto – ainda segundo o suplente – , embora não seja intenção do governo onerar a carga fiscal dos contribuintes, está prevista a criação, também a breve prazo, de um novo imposto. Um imposto suplementar (IS), digamos assim."
"Porém – prosseguindo o circunstante – , pensamos que os portugueses vão, certamente, compreender a necessidade imperiosa de criar um fundo de maneio que permita garantir a manutenção das belas autoestradas; formar professores de excelência para escolas modelares; manter as boas referências do SNS e, por consequência, das unidades hospitalares e, claro está, motivar monetariamente os quadros técnicos superiores dos serviços públicos, sob risco de fugirem para o privado. Simplificando: Trata-se de garantir a nossa magnífica posição no ranking da UE, dos cidadãos com melhor qualidade de vida e, por conseguinte, mais felizes, a par de países como, por exemplo, a Roménia ou a Bulgária. Ora, isso custa muito dinheiro!"
"Quanto ao montante da nova tributação que está em estudo, ainda não há certezas, mas presume-se que oscilará entre 30 e 50 por cento dos rendimentos do agregado familiar e terá de ser deduzido automaticamente todos os meses, pondo fim aos constrangimentos habituais, tantas vezes desnecessários, na entrega da declaração anual de rendimentos."
O governo não vê qualquer razão plausível para que o seu empenho no lançamento deste novo imposto seja reprovado pelos portugueses, dado que, suprimir o IRS, representa uma mudança substancial na relação entre os cidadãos e o fisco!" – concluiu o presente.
Pensa-se, embora com a devida reserva, que o novo imposto poderá não reflectir os efeitos "rectoactivos" que os portugueses tanto temem. No entanto, caso isso venha a acontecer, ainda existe o recurso à troika e aí aconselha-se o uso do creme do doutor Santinho, cuja eficácia foi, devidamente, comprovada (*).
Isto, no caso do Plano de Resiliência e Recuperação (PRR) ir por um plano inclinado.
(*) Lá mais para a frente, se não me esquecer (esta memória está cada vez pior) prometo que vou dedicar um artigo ao creme do doutor Santinho.

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SARL, RELATÓRIO E CONTAS

por João Brito, em 19.07.22

Prezadas e prezados accionistas, minhas senhoras e meus senhores, queridos amigos:
É com imenso prazer e justificado orgulho que aproveito a generosa oportunidade que me é dada, para pedir a vossa atenção para a análise dos Relatório e Contas, anuais, da nossa Sociedade, referentes a 2022.

INTRODUÇÃO:
Não sem alguma ponta de mágoa e até pesar – passe a redundância – , começaria por recordar a Vossas Excelências que as bases programáticas para o OGSARL (Orçamento Geral da SARL) de 2022 – aliás iniciadas no ano de 2021, conforme em tempo oportuno se demonstrará – começaram da pior maneira para as nossas aspirações.
Recordaria, em primeiro lugar, esse recente e infeliz revés que foi o afastamento das nossas equipas de futebol de todas as competições europeias, já para não dizer do fraco desempenho e das eternas celeumas nas competições domésticas. Tal facto veio comprovar, uma vez mais, que a metodologia seguida pelos nossos conselheiros não foi a mais adequada às necessidades do mercado cada vez mais competitivo.
Com efeito, em resultado do rigoroso inquérito prontamente ordenado pelo Conselho de Gerência, a tal propósito, foi já notificada a empresa Páginas Amarelas sobre a firme decisão de prescindirmos dos seus bons ofícios.
Senhoras e Senhores accionistas: Em conformidade, tenho o grato prazer de vos anunciar, em primeira mão, que o nosso próximo candidato à Presidência já não será escolhido pelo método obsoleto da Lista Classificada.
Prossigamos na exposição que se pretende que seja objectiva, isenta e minuciosa antes que comece a divagar.
 
EXPECTATIVAS POLÍTICAS GERAIS DO EXERCÍCIO:
1 - Uma das grandes propostas de discussão de alteração dos nossos estatutos, vai no sentido de corrigir, a páginas tantas, a clausula que diz que a nossa democracia empresarial é uma democracia a caminho da coesão social, cidadania e desenvolvimento. Porém, ainda não foi aprovada na generalidade por via da teimosia de alguns generais de vinte estrelas mais obstinados e a abstenção de mais uns tantos de vinte e cinco estrelas. Assim, vai ficar a aguardar até ver se chove, dada a seca severa que se continua a fazer sentir.
2 - Todavia, esperamos ver atingida a maioria de dois terços "nem que seja necessário ir a arrastar os joelhos até Fátima!", fazendo nossas, as palavras da nossa querida accionista Idalina Calvário do Rosário, no acto da entrega dos seus únicos dois terços na Comissão de Revisão da Constituição.
3 - Durante o corrente exercício foi lançado, numa fase experimental, o projecto da primeira rede nacional de frio glaciar, devido a uma massa de ar glacial, cujos efeitos já se começaram a fazer sentir, como certamente algumas e alguns accionistas tiveram a oportunidade de constatar na última deslocação ao Polo Norte. Nomeadamente, aquelas e aqueles que são defensores acérrimos da economia energética e que, por consequência, andaram a tremer de frio durante o Inverno.
4 - No concernente à nossa política externa, a prioridade das prioridades, depois do afastamento do Benfica e do Sporting da "liga milionária", passou a ser a manutenção do Futebol Clube do Porto na Taça das Feiras dos enchidos de atar e pôr ao fumeiro..., quiçá a passagem automática à Terceira Sub-distrital, série B.
5 - Apraz-me registar – nem tudo são más notícias – que houve um importante crescimento do PCIB (Produto Cultural Interno Bruto) o qual se deve, principalmente, a alguns programas emitidos regularmente pelas televisões "generalistas", designadamente "O Preço Certo", "Querida Júlia", "A Tarde é Sua" e "Manhã CM, na RTP1, SIC, TVI e CMTV, respectivamente. A gerência não dispõe, ainda, de dados definitivos sobre o espectacular aumento do PCIB durante o corrente ano, mas pode assumidamente garantir que os valores actualmente atingidos só encontram paralelo em resultados obtidos no longínquo ano de 1975 do século passado, durante as campanhas de dinamização cultural do MFP (Movimento das Forças em Parada)
6 - Ainda, no plano cultural, cumprirá assinalar que no ano transacto se realizaram, em território nacional, incluindo as regiões autónomas, qualquer coisa como 969.696 discursos oficiais, alguns dos quais em português. É obra!
7 - No sector agrícola, a tendência, a médio prazo, é para o alargamento da reforma agrária para os 90 anos, com propensão gradual para aumentar até já não haver necessidade de reformar, seja quem for.
8 - No plano da educação, o número de chumbos pouco excedeu o milhão e meio, o que num ano de seca e das oscilações habituais do preço dos combustíveis: descidas irregulares de 1 cêntimo e subidas regulares de 10 cêntimos, agora com o pretexto da guerra da Ucrânia, não pode deixar de ser considerado positivo e, por consequência, antecipar um cenário mais optimista para a nossa capacidade produtiva.
9 - No plano político imediato, dois pontos avultam decisivamente:
1º - O Bloco Central está longe de ser constituído por subsistirem dúvidas em relação à sua constituição, dado que se prevê uma aliança entre o Chega Pra Lá (CPL) e o nosso principal rival.
2º - A produção de factos políticos vai ser sistematizada em regime de plano quinquenal dadas algumas fragilidades do sistema inicialmente previsto que, como é do conhecimento geral, era para ser concebido em regime de plano inclinado.
10 - Finalmente, o conselho de gerência espera ver aprovada, no próximo exercício, a sua proposta democrática e patriótica para a delimitação dos sectores, a qual assenta em bases muito sólidas, práticas e pragmáticas – passe a redundância – e que aqui se enfatizam, mais uma vez: Independentemente de dar lucro ou prejuízo, tudo deve ficar nas mãos da iniciativa privada, permanecendo no sector público, apenas e por enquanto, as Forças Armadas em Carapaus de Corrida (FACC), apenas por uma questão de prestígio.
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Senhoras e Senhores accionistas: Sem pretender afastar-me do assunto que me trouxe a esta assembleia geral ordinária: a prestação de contas da nossa sociedade.
Para dar por encerrada esta sessão, pediria, contudo, a vossa indispensável atenção para uma última e pertinente questão que é a seguinte:
O ano que vai a meio, ainda não terminou de facto, e por muito estranho que vos possa parecer, o ano que teve início no final do ano anterior, veio, efectivamente, pôr termo ao ano que decorre.
Mesmo estando perante uma problemática aparentemente complexa, na verdade é bastante simples. No fundo tudo resulta, contrariamente ao expectável, da incompatibilidade existente entre o ano económico e o ano civil, a qual existe, por seu turno, entre outros anos, sejam comuns ou bissextos.
É óbvio que dá dores de cabeça, sobretudo a quem sofre de enxaquecas, mas não há dor que uma aspirina – passe a publicidade – não possa, pelo menos, atenuar.
Então, para terminar sem mais delongas, se os anos religiosos não coincidem entre si, e tendo o ano ateu profundas raízes marxistas, a gerência deliberou pedir à Comissão de Revisão da Constituição um parecer, a fim de se determinar em que ano estamos.
Nas actuais condições, sentimos o dever de não apresentar a Vossas Excelências, afinal, quaisquer contas, o que aliás se insere na melhor tradição da nossa sociedade.
Muito obrigado pela atenção dispensada e bem hajam!
 
O Presidente do Conselho de Gerência em exercício até ver,
 
António do Ó Costa

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Sei que já escrevi acerca deste tema, algures, mas a minha memória já não é a que era dantes e, por muitas voltas que dê à canhola, não descortino onde a publiquei. No entanto, permita-me, meu caro ou cara, abusar da sua infinita paciência ou, se preferir, não leia. Fico-lhe, na mesma, muito reconhecido.
Aqui vai mais uma reflexão sobre a nossa História, assunto sobre o qual me dá muito gozo escrever, na presunção de que seja, igualmente, do seu agrado, se passar por aqui.
Propus-me, desta feita, analisar algumas ocorrências mal esclarecidas, do nosso passado histórico, nomeadamente as relacionadas com o dilema de Viriato, que nunca se soube qual era, ou a razão que levou Sertório a não optar pela dupla nacionalidade. Mas nem sempre o prometido é devido, por várias circunstâncias, e, como se tem de começar qualquer coisa por algum lado, vou tecer alguns considerandos sobre o tema, fazendo uma referência especial ao nosso primeiro rei, Dom Afonso Henriques que parece-me não ser inédita, mas pronto, espero que me perdoe se for recantada.
Afonso I, de Portugal, como sabe, foi o fundador deste lindo torrãozinho à beira-mar plantado.
Como também tem obrigação de saber, a Península Ibérica, nomeadamente a sua parte mais ocidental, a Lusitânia, foi invadida por inúmeros povos, entre os quais destaco os Hunos e Indivisíveis, os Suecos (foram eles que introduziram a sueca em Portugal), os Vândalos ou Holligans, os Visigordos e os Jihadistas ou Sarracenos (sublinho que estes últimos já cá estavam há muito tempo).
Essa súcia de malandros, proveniente de várias latitudes, fixou-se em várias zonas do território que viria dar origem à nossa nacionalidade. Uns ficaram-se pelo Fundão e outros fundaram cidades como Santarém e Lisboa. Isto foi porreiro para Afonso Henriques e já lhe explico porquê, se souber e não me esquecer (vou mudar a àgua às azeitonas)...
 
Prosseguindo: Orfão de pai desde tenra idade, o nosso primeiro rei armou-se em cavaleiro quando atingiu a maioridade e começou por travar o passo ao Dom Peres de Trava, um galego que se tinha juntado em mancebia com sua mãe, Dona Teresa de Leão, uma dissoluta dos quatro costados.
No momento oportuno, ajustou contas com ambos na batalha de São Mamede em mil cento e qualquer coisa.
Já rei, à revelia do Papa (rejeitava a vassalagem), veio por aqui abaixo, montado num lindo corcel e, à frente de um numeroso exército de bravos guerreiros, antecipou-se aos demais conquistadores e tomou Santarém aos mouros. Depois desta estrondosa vitória, animado pelo feito e cheio de élan, avançou em direcção a Lisboa e, graças ao sacrifício de Martim Moniz(*) e ao precioso apoio dos cruzados da Ordem Equestre, estes últimos sob condição de virem a cavalo, também tomou aquela que é, efectivamente, o "Berço da Nação", ao invés de Guimarães, como alguns especuladores pretendem fazer crer. Aliás, basta consultar o tratado sobre Portugal Medieval, do Professor José Mattoso.
O poder do rei consolidou-se a olhos vistos e choveram elogios de todos os quadrantes políticos e partidários, particularmente dos partidários da sua causa. De tal modo que Geraldo Geraldes ofereceu-lhe a Praça do Giraldo, de mão beijada e sem qualquer pavor.
Ainda, no decorrer do seu longo reinado, Afonso Henriques teve grandes dificuldades para expulsar os restantes jihadistas islâmicos de Lisboa porque os gajos eram mais que as mães, por assim dizer. Mas, mesmo assim, teve tempo suficiente para correr com eles de Campo de Ourique; Campo Grande; Entrecampos; Conde de Redondo (Conde de Redondo é rua, mas que se lixe); Campo Pequeno; Campo Mártires da Pátria; Campolide; Campo Santana; Campo das Cebolas e se mais campos houvera lá chegara.
Para além disso, e já nas lonas devido ao avançar da idade (setenta e nove anos era uma idade muito provecta para aquela altura) e aos maus fígados associados às crises de gota (segundo as crónicas de antanho, Afonso pelava-se por aguardente de medronho), ainda teve tempo para inaugurar a Alameda, atribuindo-lhe o seu nome, narcisista como era.
Muita coisa fica no ar a seu respeito. Sei lá, olhe por exemplo: ainda há dúvidas sobre a sua cota de malha; se seria de pura lã virgem ou uma porcaria feita na China; ou como trataria o seu filho na intimidade do lar: se por Sancho, Sanchinho, Sanchocas ou, simplesmente, "pá"; ou se, porventura, terá assinado o Tratado de Zamora em cruz, sabendo-se que era um Cristão Democrata ferrenho.
No último estádio da sua vida, jamais se saberá se ele ainda teria a noção de ter fundado Portugal.
Finalmente e não menos importante: será que o nosso primeiro rei, enriqueceu à pala do seu reinado ou também foi enganado pelo Ricardo Salgado? São questões que ficam no ar, ad aeternum...
 
(*) É consabido que, se o pobre Martim não os tivesse entalado nas portas do castelo de São Jorge, para dar passagem às nossas tropas, Lisboa não teria sido conquistada com tanta ligeireza. É da História.

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A GATA BORRALHEIRA

por João Brito, em 13.06.22

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Quando a Fada Madrinha lhe ofereceu um lindo vestido e pôs à sua disposição uma carruagem puxada por seis fogosos cavalos, estava longe de supor que eram para ir ao baile de debutantes no Palácio do Príncipe Real. Aquilo foi uma visão tão linda e tão fantástica que até teve receio de se beliscar, não fosse desvanecer-se e acordar novamente para a sua rotina diária na cozinha. Se ao menos fosse chef, vá que não vá!
Todavia, naquele momento tão sublime, pôs de lado a cruel realidade.
Finalmente, tinha chegado a sua hora feliz. Porém, havia uma condição essencial que a Fada Madrinha lhe impusera: tinha de regressar à meia noite em ponto – nem mais nem menos um minuto – , altura em que o feitiço findaria.
As fadas são muito exigentes e, às vezes, pecam por excesso de rigor e até são capazes de acabar com tudo na melhor altura. E muito boas são elas porque, quanto às fadas más, então, não sei se vos diga se vos conte!
Já ia na enésima dança com o Príncipe Real, cheia de contentamento, quando começaram a soar as doze badaladas provenientes da torre do relógio. Precipitada, a Gata Borralheira, desatou a correr escadaria abaixo e desapareceu na noite escura e negra – passe a redundância – como breu. Contudo, na retirada apressada, deixou cair um dos sapatinhos que, por qualquer razão, desconhecida da própria razão, não se esfumou com a cessação do encantamento.
Desvairado, o Príncipe Real (já chateia estar a repetir Príncipe Real!), procurou por todo o reino e arredores a dona daquele precioso sapatinho.
Depois de muito buscar, o PR, acabou por chegar à mansão onde morava a Gata Borralheira.
O sapatinho foi finalmente experimentado, sucessivamente, nas suas duas manas, inclusive na madrasta – que era gorda e muito feia, sublinhe-se – , nas criadas de quarto e, por último, na própria. Nada. O calcante não serviu em nenhuma.
Na tentativa desesperada de tranquilizar o espírito, o PR resolveu experimentar o sapatinho no pé do Jacinto, o moço da estrebaria e...milagre dos milagres! Entrou, perfeitamente, no pezinho delicado do rapaz que nem uma meia de seda (se fosse que nem uma luva ou uma meia-desfeita, saía fora do contexto).
Assim, lá foram ambos de mãos dadas, alegres e felizes, a caminho do Palácio do PR (não confundir com o Palácio do senhor Presidente da República).
Nas coisas do amor, o PR não era nada esquisito.
Adaptação muito parva de um conto infantil(*), de Charles Perrault, com o título em epígrafe.
(*) - Peço encarecidamente desculpa a todas as crianças.
 

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Desta vez foi a gota d'água, como é comum dizer-se. Mais uma atitude pessoal, "instigadora de ódio" e os "comissários russos de censura prévia" desta rede social fizeram-me a folha: vinte e nove dias de castigo. Estou proibido de publicar, de gerir páginas e grupos, de tecer comentários, enfim, uma panóplia de interdições capazes de me deixarem à beira de um ataque de nervos. Ainda agora a procissão vai no adro e já estou possesso com tantas restrições!

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A gota d'água foi o desfecho das várias ameaças de limitação de acesso que me vinham a fazer há algum tempo por via das minhas reincidências e, desta feita, quando comentei de forma tão "exuberante" uma publicação da CNN Portugal a propósito da eventual ajuda dos países ocidentais à reconstrução da Ucrânia, não tiveram contemplações.

Este "Face" não brinca em serviço e dá forte e feio quando lhe sobe a mostarda ao nariz.
A talhe de foice, quero deixar um aviso (sério ou não, fica ao critério das eventuais leituras) acerca dos serviços de "espionagem" do Facebook: Efectivamente, esta rede social controla o que escrevemos. Para o público e para os amigos já sabemos. Contudo, os "censores" do "Face" vão mais longe: também gostam de espiolhar o que guardamos para nós. A coisa está, supostamente, em automático, consoante os vários antecedentes lógicos (segundo eles) introduzidos no "programa"...
In this case, it's about the big American brother taking care of us "sinners".
If he was Russian, I wouldn't be surprised...
Se isto soar a mania da perseguição, esclareço que não era minha intenção. Antes pelo contrário! Até porque não sou apologista de teorias conspiratórias.

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NO TEMPO DA OUTRA SENHORA

por João Brito, em 01.05.22

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Havia gente que era presa, torturada e morta pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) por contestar o regime; havia gente cuja miséria era tão desesperante que a obrigava a ir a salto para a França; havia gente que vivia em barracas nas periferias das grandes cidades; havia uma guerra ultramarina com três frentes: Angola, Moçambique e Guiné. Um esforço de guerra que aumentava a nossa pobreza e nos distanciava dos elevados padrões de crescimento dos países europeus mais desenvolvidos. Uma guerra que obrigava ao sacrifício de milhares de jovens, nomeadamente dos provenientes das zonas rurais, cujas famílias, para subsistirem, dependiam do seu amparo; havia o exílio, forçado ou voluntário, de figuras públicas contrárias ao regime e, não raras vezes, o seu assassinato; havia as prisões políticas e os algozes do sistema; havia a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa, organizações paramilitares de integração ideológica; havia a censura prévia e a proibição de manifestações na via pública; havia a arregimentação de milhares de pessoas para virem periodicamente a Lisboa, à Praça do Comércio, louvar o Salazar; havia a repressão policial sobre os movimentos de contestação estudantil e do operariado; havia uma Igreja que pactuava com a ditadura; havia um bispo, o do Porto, que era a excepção à regra e foi obrigado a exilar-se; havia o General Humberto Delgado que um dia, respondendo a uma pergunta, foi imprevidente afirmando que se fosse eleito Presidente da República, "obviamente", demitia o tirano, sendo morto na fronteira pelos seus verdugos; havia uma cadeira da qual o iníquo caiu e feneceu; havia uma certa "Primavera Marcelista", mas foi sol de pouca dura; havia a necessidade premente de acabar com a "Guerra do Ultramar"; havia a vontade popular de se juntar aos militares revolucionários naquele memorável dia; havia muito para fazer há quarenta e oito anos; havia...

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ONDE É QUE VOCÊ ESTAVA, NO 25 DE ABRIL?

por João Brito, em 25.04.22

salgueiro maia.jpg

A propósito desta pergunta que se converteu num ícone da imagem do jornalista e escritor Baptista Bastos (1934 - 2017) e recorrente em conversas e leituras de carácter biográfico, apraz-me tornar ao assunto do 25 de Abril. Um tema melindroso para muita gente, certamente, mas sem esse acontecimento memorável e relevante para a história da nossa – ainda jovem – democracia, não seríamos a nação livre que somos hoje, malgrado os defeitos que lhe são atribuídos (à jovem democracia).
Não há sociedades perfeitas, se bem que hajam umas mais perfeitas do que outras, por muito incoerente que esta afirmação possa parecer...
Não obstante persistirem alguns ressentimentos (alguns será favor...), julgo que é saudável trazer à memória factos que nos enchem de orgulho, embora reconheça – insisto – que não é uma ideia consensual. Isto porque ainda há gente que pensa que no tempo da "outra senhora" é que era porreiro; o respeitinho era muito bonito e andava tudo a toque de caixa.
Apesar de ser um reflexo da nossa falta de cultura democrática (e não só), não é literalmente condenável: os políticos que têm tomado conta dos nossos destinos há quase meio século, têm contribuído de alguma forma para esse juízo. Isto, segundo o meu ponto de vista que até admito que seja um bocadinho desconforme.
Quase cinco décadas após o 25 de Abril, ainda há muitas feridas por sarar, nomeadamente as relacionadas com o processo de descolonização que, como é consabido, foi muito precipitado. Se calhar não podia ter sido diferente, dadas as circunstâncias históricas nimiamente explicadas. Contudo, isso teve um preço bastante elevado que foi o retorno apressado de muita gente "com uma mão à frente e outra atrás"...
Todavia, correndo o risco de estar errado e, por conseguinte, a minha opinião ser muito discutível, penso que foi um efeito inevitável da "revolução"...
Porém, como disse, não podemos, simplesmente, varrer esta data da nossa memória, como pretendem algumas alas mais "conservadoras" cá do burgo...
Logo, apeteceu-me contribuir, uma vez mais, para que este dia permaneça perene na lembrança daqueles e daquelas que valorizam o preço da liberdade. Assim, resolvi rescrever um artigo, com alguns anos, acerca dessa fantástica e exclusiva data para as gerações que a testemunharam, particularmente a minha que, na altura da "Revolução de Abril", combatia nos territórios ultramarinos...
Lembro-me perfeitamente – como se fosse hoje – de ter experimentado um sentimento novo: uma mistura de expectativa e alguma apreensão. Expectativa porque, acabado de regressar (provisoriamente?) de uma das mais ferozes frentes de guerra, senão a mais feroz, e tendo consciência de que não estava livre de volver ao mesmo lugar ou a outros, assim que começaram a surgir os primeiros relatos radiofónicos de um movimento militar, uma das minhas primeiras reacções, pelo menos a imediata, foi a de pensar que não ia voltar ao "ultramar". É uma reflexão que guardo com muita intensidade porque, para um puto com vinte anos, uma comissão militar em África não era a mesma coisa que participar num safári. Mas só cheguei a essa conclusão pouco depois de lá estar, pois, antes de abalar, julgava que ia à aventura para aquela África que via nos filmes em que o Johnny Weissmuller fazia de Tarzan.
Apreensão porque não sabia qual era o objectivo desse movimento – embora tivesse uma noção vaga de que era preciso dar outro rumo a isto – e não porque emergisse subitamente da minha razão algum tipo de consciência política ao ponto de julgar o regime que estavam a tentar derrubar, como o mau da fita. Longe de mim estar tão bem esclarecido como aqueles e aquelas que pagaram bem caro o seu combate à ditadura que dominava em Portugal.
Além dessa expectativa e alguma inquietação, tinha o conhecimento exacto de que o teatro de guerra donde acabara de regressar, a Guiné, estava de feição para o "inimigo" e, como tal, se o conflito prosseguisse, o desfecho ia ser ainda mais trágico para o nosso lado do que tinha vindo a ser até ali...
Lembro-me perfeitamente – como se fosse hoje – que antes de frequentar um curso militar na base aérea da Ota, para o qual havia sido convocado, fui colocado noutra base, a do Montijo, integrado em manobras militares no âmbito da OTAN.
No intervalo de um turno de trabalho nocturno, aproveitado para esticar o corpo em cima de uma tarimba, entre o dormitar e algum estado de sobreaviso – próprio de quem em tal estado (mesmo em simulacro) não deve adormecer profundamente – , senti um alvoroço vindo da área operacional que não distava muito do local onde eu descansava: um "Hammarlund" sintonizado no Rádio Clube Português, o emissor que a malta, por opção ou mero acaso, tinha no ar, difundia notícias contraditórias sobre um golpe militar que estava a decorrer em Lisboa. Não me apercebi imediatamente do que se tratava, até que o meu camarada Lopes me deu um safanão nas pernas para me instar a prestar mais atenção ao que estava a acontecer. "Será grave?" - pensei. Depois, com o raciocínio mais lesto e reforçado com um café quente e um cigarro, despertei da insensibilidade aos acontecimentos...
À medida que o tempo decorria e o dia ia clareando, a rádio continuava a transmitir marchas militares e música de intervenção, intercaladas com relatos exaustivos de última hora. Parecia que tinha caído o Carmo e a Trindade e, com efeito, o Carmo acabara de "cair"...
Passadas as indefinições iniciais, nos dias subsequentes, a situação parecia estar controlada pelas forças militares revoltosas. Tal suposição era baseada exclusivamente no que escutávamos e víamos na rádio e televisão porque ficámos retidos na unidade, não sei precisar durante quanto tempo. Certo é que ninguém entrava nem saía, por ordem do comando, talvez ainda indeciso em relação ao lado que pretendia apoiar. Penso, embora sem certeza, que essa ordem era extensiva à malta dos países que participavam no exercício e estava estacionada na base aérea.
Passado que foi o "período de ponderação" do comando da unidade, durante o qual as manobras militares foram mandadas às urtigas, tivemos ordem de soltura. Finalmente, chegara também para nós o dia tão esperado.
Lembro-me perfeitamente – como se fosse hoje – que atravessar o Tejo na lancha militar que me devolveu a Lisboa, foi algo fantasticamente incomum, relativamente à monotonia de outras travessias.
Talvez, sugestionado pelo momento particular, ao desembarcar, senti que pairava sobre as colinas da cidade um efeito de luz diferente, magnífico até, a que ao cheiro a maresia se juntavam outros indescritíveis elementos aromáticos. Penso nessa sensação agradável com alguma nostalgia, mas não muita. Os anos ajudaram-me a obter algum calejo emocional e a olhar para trás com uma visão menos romântica do maior acontecimento da nossa História, no meu tempo.
Mas – continuando – onde notei maior diferença foi nos semblantes e atitudes das pessoas com as quais me cruzei; acima de tudo, nos seus sorrisos abertos. Inclusive – algumas – pagavam com beijos, abraços e cravos a generosidade dos homens fardados que lhes tinham acabado de restituir a liberdade e a confiança. No fundo, também me senti participante nessa maravilhosa manifestação de exultação popular, mesmo tendo a noção de não ter sido actor e tampouco figurante no memorável acto libertador. Foi como se fossem os primeiros dias de todas as esperanças, com a particularidade sui generis e, quiçá, única no mundo, de os militares estarem ao lado de um povo.
A esta distância temporal, continuo convicto de que valeu a pena um punhado de capitães ter lutado (por obra do destino ou acaso e sem muita efusão de sangue), para mudar o nosso país.
Muito ficou por fazer, evidentemente, e ficamos com alguma mágoa ao constatar que, entre outras situações de injustiça – para usar um termo suave – , questões como a sustentabilidade e equidade sociais ainda são motivo para debates políticos muito acirrados entre forças partidárias contrárias, passados quase cinquenta anos de "democracia"...
Mas pronto, somos livres graças a Salgueiro Maia e a outros heróicos Capitães de Abril. O livre-arbítrio é uma prerrogativa que nos cabe desde então. Valha-nos isso...
 

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RITOS E CELEBRAÇÕES DO CAMINHAR

por João Brito, em 07.04.22

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Ando pelas ruas de Lisboa, é uma quente tarde de sexta-feira, as ruas estão quase despovoadas e as raras pessoas que caminham são pessoas possuídas por uma tristeza amável.
Dos velhos muito velhos, apenas dois velhos muito velhos estão sentados num banco de jardim. Não conversam: trespassam-se com o olhar, estão a ver para lá de tudo, para aquém de tudo.
Um cego avança pelo fio do passeio, junto do qual estão estacionados dezenas de automóveis, enquanto avança com todos os outros sentidos despertos. Surge um indivíduo aos gritos:
- Ó sua besta, então não vê o que anda a fazer?
O cego pára, cativo de uma angústia tão imensa como um desprezo ou como um ódio. Ergue a bengala e agita-a:
- Onde é que você está, seu malandro, para lhe partir a cabeça?
Estão nisto: no domínio de uma espécie particular de indignação - a dos agredidos, que, afinal, são ambos. Ando e penso: é como se estivesse perto de mortos, sem manifestar o mínimo interesse por eles.
Outrora, a cidade era mais confortável e menos hostil. As pessoas, mesmo sem se conhecer, cumprimentavam-se. Não era a celebração da cortesia, nada disso: era, sim, um aceno, um sinal de presença. Agora, as pessoas parecem assustados retirantes de todos os sítios, porque se não sentem bem em nenhum deles. Há nas pessoas uma forma confusa de não estar em parte alguma e o desejo obscuro de estar em todas as partes. Cegos. São cegos sem bengala mas igualmente desencontrados. Os tempos tornaram as pessoas assim. As maneiras de comunidade, que ultrapassavam, pela fertilidade e pela constância, toda a nossa capacidade de imaginação, foram inclementemente derruídas. Vê-se: há outra gente que não é nova de rejeitar, anular e excluir os outros. O sentido da consagração da vida foi substituído pela exaltação do êxito, da pressa, da aspereza. Há predicados e entendimentos que foram banidos das relações; por exemplo: o da solicitude. E eu gosto de solicitude, uma discreta expressão da malícia, do humor e, até, da dignidade. Não há teoria que explique esse banimento.
Vejam só isto: quantos carrinhos de bebé, empurrados pelos pais jovens, se vêem hoje nas cidades?
Eu sei, senhores, ah!, se sei!, quanto foi penosa a batalha que nos conduziu a um patamar de liberdade. Porém, não devíamos, penso que não devíamos, ter deixado que muito do que é essencial se perdesse - até uma fatia de afecto, até uma pequena ração de amor.
Ando pelas ruas de Lisboa, é uma quente tarde de sexta-feira, as ruas estão quase despovoadas e as raras pessoas que caminham são pessoas possuídas por uma tristeza amável. O casal de velhos olhou-se e sorriu com doçura. Ela pegou nas mãos dele e afagou-as lentamente, sem deixar de o olhar, sem deixar de sorrir.
Lá no fundo, impercetível quase, um ponto se move, alarga-se aos poucos, contorna-se-lhe agora o vulto, o vulto é um homem grisalho, um homem de muito mundo, de passo largo e pesado. Olho-o e sou eu. Olho-me e sou a imagem devolvida de uma ostensiva paixão. E, de repente, simplificado e livre, percebo que sou o sujeito de uma oferta e de uma procura. A oferta do amor e a procura de felicidade.
Desesperadamente, como o cego ou como os velhos. Desesperadamente, como todos nós.
Do livro: Lisboa Contada pelos Dedos - Crónicas de Baptista Bastos (Abril de 2001).

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