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VÍRUS

por João Castro e Brito, em 25.01.24

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Está aqui um caldinho pandémico que não sei se vos diga se vos conte! Já só faltavam o senhor Albuquerque e os seus "amigos". Para não dizer dos truques de magia do senhor Jardim durante mais de 40 anos de governação da Região Autónoma.
Ao contrário do senhor Costa, agora Primeiro Ministro de um governo de gestão, que se demitiu de imediato, mesmo sem ter sido constituído arguido por suspeita de envolvimento num escândalo de corrupção, o Presidente do Governo Regional da Madeira é arguido e não pediu a demissão (até agora).
É este o ponto da situação a pouco mais de um mês das legislativas antecipadas por demasiados casos e casinhos.
Resta ao eleitorado pensar mil vezes em quem votar, o que, na minha modesta opinião, pode ser uma tortura mental. Excluo de tal dificuldade de escolha quem "não tem dúvidas e raramente se engana", parafraseando alguém, irrelevante para aqui (ou nem por isso)...
Podemos votar em quem está menos infectado com o vírus, mesmo sem deixar de estar "doente". Escolher o mal menor já não é uma opção inédita. Pelo menos, dentro da tríade que tem repartido o poder ao longo de 50 anos de "democracia": aqueles e aquelas que, afinal, ainda não conseguiram (porque não quiseram) colocar a malta a par da qualidade de vida dos cidadãos e cidadãs dos países mais avançados da Europa.
Ao contrário de um slogan do PSD, porventura ainda visível em algum cartaz espalhado por aí, que não este (manipulado) com que ilustro o artigo, já não acredito nem deixo de acreditar. Porém, tenho o dever de votar! É uma prerrogativa que a liberdade me restituiu em 25 de Abril.
Ainda restam alternativas muito contagiosas e, por isso, bastante perigosas, certamente, mas, para quem gostar de "aventuras", tem por onde escolher. Da extrema-direita à extrema-esquerda, há gostos para algumas formas interessantes de suicídio nacional...
Quanto a isto, tenhamos ainda alguma fé na justeza da Justiça e deixêmo-la fazer o seu trabalho...

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UM CASO BICUDO

por João Castro e Brito, em 24.01.24

um caso bicudo.jpg

O corpo estava de costas. De costas voltadas para o chão. No ventre tinha um buraco redondo.
O inspector Casimiro avaliou-o minuciosamente e disse:
"Calibre 38".
Entretanto, Silvério – o fotógrafo forense – aproximou-se e informou:
"Apareceu a arma do crime, inspector: é uma faca de ponta e mola. Estava mesmo ao lado do corpo, dentro de um saco preto em veludo cotelê."
Aquilo não era propriamente uma faca de ponta e mola, mas antes um saca-rolhas.
O inspector Casimiro, pensou que o fotógrafo estava a precisar de ir ao oculista. Porém, não quis abrir ali uma discussão sobre o objecto do crime porque também tinha caído em erro ao aludir a uma arma de fogo.
Sem dar parte de fraco, mirou e remirou o saca-rolhas e concluiu:
"Deve ter sido à queima-rolha... Temos aqui um caso bicudo!"
"Diria, até, um bico d'obra, chefe! – disse o agente Silva
Reuniu os ajudantes e ordenou:
"Alinhem os suspeitos por alturas!"
O agente Silva alinhou os suspeitos por alturas e contaram oito.
"Não há mais?" – perguntou o inspector Casimiro.
O principal suspeito explicou:
"Não vieram todos, senhor inspector. Hoje dá o Sporting - Benfica na televisão.
"Assim, disponíveis, só há estes, chefe!" – disse o Silva.
"Bem...chegam." – disse o inspector Casimiro.
Puxou do cachimbo, acendeu-o, sorveu uma fumaça e cravou o olhar penetrante nos suspeitos perfilados à sua frente e por alturas, como havia pedido.
O mais alto apontou o dedo para as duas suspeitas que o precediam e declarou:
"Senhor inspector, como vê, estou acima de qualquer suspeita!"
Discretamente, o inspector Casimiro, ligou o gravador de voz do telemóvel.
"Bom, vamos lá saber qual de vós é que vai abrir o bico e confessar a autoria do crime de homicídio, na pessoa deste pobre que jaz morto e arrefece?"
Silêncio sepulcral.
"Vá lá!" – aconselhou o inspector com bons modos: "Quem diz a verdade não merece castigo!"
"Se calhar foi algum dos que foram à bola, senhor inspector!" – sugeriu um outro agente presente, o Pimentel.
O inspector encolheu os ombros e disse:
"Então, fica incumbido de ligar aos gajos na segunda-feira e faz-lhes a pergunta, ok?"
Nesse momento apareceu o médico legista a correr, espavorido.
"O homem está vivo!...Ele está vivo!"
Casimiro levantou um sobrolho e perguntou:
"Mas está vivo, quem? Desembuche, homem!"
"O morto, inspector! Quem havia de ser? – redarguiu o médico legista, perturbado.
O principal suspeito deu um passo em frente e confessou:
"Fui eu, senhor inspector. Fui eu que o matei!"
"Então, puxe uma cadeira e vamos lá conversar!"
Disse ao agente Silva pra mandar destroçar os restantes suspeitos.
"Agora, conte-me tudo, tintim por tintim!"
"Bom, senhor inspector, não foi com intensão." – disse o homicida, limpando, a um lenço, o suor que lhe escorria da testa: "Havia muito fumo na sala, não se via quase nada e, por causa disso, eu andava à procura da rolha. Mais a mais, a vítima veste um colete com botões de cortiça e eu fiquei baralhado!"
O inspector Casimiro reflectiu num ápice e disse:
"Ah foi? Então, vou acusá-lo de homicídio involuntário!"
"Não pode, inspector! – contrariou o médico legista – "Acabei de dizer que a vítima está viva; fui eu que a reanimei!"
O inspector Casimiro, gesticulou, em trejeito de pergunta, como é que o médico o havia feito.
"Pus-lhe a rolha!" – disse – "Tapei-lhe o buraco do saca-rolhas."
"Ah bom!" – condescendeu o inspector – "Portanto, temos aqui dois casos de tentativa de homicídio. Ora, eu não posso acusá-lo de tentativa de homicídio frustrado involuntário que diabo!"
Veio a vítima e dirigiu-se ao médico legista:
"Doutor, então, não me põe o lacre? É q'assim, a rolha salta!"
"Xi, já não me lembrava que você tem gases, homem!" – desculpou-se o médico legista.
"Já sei!" – exclamou, de súbito, o inspector Casimiro, questionando o homicida:
"Você tem licença de uso e porte de saca-rolhas?"
"Não, senhor inspector!" – confessou o ex-homicida, branco como a cal da parede.
"Ora, aí está! Você só pode sacar caricas! Abra-me lá uma míni, antes de o algemar, vamos!"
Todavia, o infractor, num salto, apoderou-se do saca-rolhas e apontou-o ao peito do inspector:
"Mãos ao ar! Ninguém se mexe!"
Soltando uma gargalhada sinistra, preparava-se para fugir pela janela quando se ouviu um estampido abafado. Atingido em cheio na nuca, o patife cambaleou e caiu redondo sem ter tido tempo para gritar pela mãe.
"Foi a rolha da vítima que saltou." – disse o médico legista.
"Matou-o?" – perguntou o inspector Casimiro.
"Está morto e bem morto!" – confirmou o médico legista após declarar o óbito.
"Ora, então, escreva aí, Silva:
Prende-se a vítima por homicídio involuntário!" – ordenou o inspector Casimiro.

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cartas portuguesas.jpg

Nota do autor: A expensas da Fundação Padarias e Derivados e do Círculo Amigos dos Lacticínios, Artur Reboredo e Silva, personagem que descobri no preciso momento em que escrevinho isto, sentado na sanita – perdoe-se-me o vulgarismo com que descrevo o local de "trabalho"(*) – , deslocou-se a Paris onde havia encontrado duas cartas inéditas e um telegrama, caídos do céu, os quais teve o cuidado de remeter, com toda a urgência, ao Património Cultural dos CTT do nosso amado país. Transcrevo uma das cartas, já de si enfadonha, para quem, eventualmente, passar por aqui só pra deitar o rabo d'olho:
 
Paris, 2 de Novembro de 1669
Adoré Mariane:
Estimo que se encontre de boa saúde, assim como as suas santas e amabilíssimas irmãs, sem esquecer a Abadessa, que eu cá vou indo conforme a vontade de Deus e a graça do meu Rei.
Tolere-me, por todos os santinhos, o atraso desta singela cartinha, mas só ontem me foi dado a conhecer, em detalhe, o conteúdo das suas six longues Lettres Portugaises Inédites, entregues pela mão de Guilleragues, as quais me tomaram o final do dia e se prolongaram até ao raiar do Sol deste em que lhe respondo, apesar de enevoado.
Perdoe-me, também, todo o mal que lhe fiz, inclusive a perda da soma preciosa de três vinténs, esse o pior deles e, infelizmente, irreparável aos olhos de Deus e aos da física.
Aimé Mariane, pagarei, caro, tal mal, nem que para tal passe a comer do rancho das praças ou assente praça na Legião Estrangeira. Ordene-me e fá-lo-ei por penitência!
Oh, ma douce et malheureuse Mariane, o que fomos fazer, valha-nos Deus?! A carne é fraca, é o que é!
Epistolar Mariane, é um militar que lhe suplica, embora seja seu hábito ordenar: venha pra cá viver comigo o socialismo celeste. Plongeons notre amour dans la Rose. Aqui, estaremos juntos, no centro da União Europeia, rodeados de queijos, legumes, vinhos, teatros e muita cultura, ma chérie, ma vie!
Fuja, belle Mariane, desse convento escuro e frio! Faça-se à vela, antes que o nosso amor se vá à vela, e venha, meu rico tesouro!
Dispa o hábito e embarque no comboio da meia noite pro Barreiro, mon amour! Depois é só tomar outro em Santa Apolónia pra Paris. É rápido, vai ver, minha flor!
Espero por si, junto ao Arco do Triunfo onde estou acampado em greve de fome, antecipando o castigo pela ignomínia da desonra.
A barraca é pequenina, mas cabemos nela aconchegados.
Beijos apaixonados do seu plus que tout,
 
Passos Dias Tristão
Alferes Miliciano do Exército de Luís XIV - o Grande.
 
(*) A verdade seja dita
E com grande exaltação
Q'é sentado na sanita
Em febril agitação
Que m'encontro com a escrita

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EM PRIMEIRÍSSIMA MÃO!

por João Castro e Brito, em 11.01.24

em primeiríssima mão.jpg

Caras pessoas, agora que as próximas legislativas estão a bater-nos à porta, tenho o raro privilégio e, por conseguinte, a enorme satisfação de vos anunciar, em primeiríssima mão, a emergência na cena política nacional de alguns novos partidos que poderão contribuir para a revitalização do quadro da vida pública e, quiçá, da vida púbica. Algo assim como uma lufada de ar fresco no deserto tórrido do panorama político cá do burgo, estão a ver a coisa? O tempo dirá se vamos ter um clima mais temperado ou se isto destempera (não confundir com desarranjo intestinal) tudo. Passemos, então, à sua apresentação e descrição sumária:
Partido Anarco-Maoista de Portugal, PAMP:
Resultou de uma cisão no Partido Maoista Revolucionário Português, PMRP (não confundir com o Movimento dos Rapazes e Raparigas que Pintam as Paredes, MRPP, de boa memória iconográfica).
É fundador da conhecida Décima Segunda Internacional, juntamente com dois partidos irmãos: um de Andorra e outro do Burundi.
Só não fundou a Décima Terceira porque os seus membros constituintes são pessoas muito supersticiosas. Pensa-se que a implantação nacional do partido vai ser pouco significativa, dado o reduzido número de membros: catorze militantes – co-fundadores – mais um apoiante, estudante-trabalhador, natural de Cacilhas, ainda hesitante entre o PAMP e o CHEGA.
Do seu programa eleitoral destaca-se, na essência, a luta pela abolição da roupa interior que, segundo o espírito mentor do seu líder, cujo nome já se me varreu, "...oprime e estrangula as partes pudendas do povo, não permitindo a livre circulação sanguínea..."
 
Conselho Patriótico Aníbal Cavaco Silva, CPACV:
Partido, assumidamente, de extrema-direita com relações estreitas com outro grupo extremista português, o Camaradas Honrados Em Glória Avante, CHEGA (a propósito de Avante, qualquer dissemelhança com um outro partido irmão, é pura semelhança).
Em comunicado recente, divulgado na rede social TikTok, revelaram que, caso venham a fazer parte da nova AD (quem sabe), vão propor a alteração a uma das regras de combate, relacionada com a prática milenar da arte marcial "luta greco-romana", de onde deriva a sua matriz intelectual, por a considerarem muito lasciva e, por isso, propícia a interpretações dúbias e até moralmente imprópria para exposição pública.
 
Partido Monárquico Leninista, PML:
Idealiza a construção de um futuro brilhante para o povo português, através da fusão teórica da monarquia constitucional com o centralismo democrático. Propõe a aclamação de Jerónimo de Sousa como Rei de Portugal e dos Algarves.
Centro Social Centrista, CSC:
Situando-se à direita, no espectro político nacional, este partido reivindica-se como um partido de centro-esquerda, embora a generalidade dos seus militantes, cerca de sete, se afirmem convictamente neo-nazis. Trata-se, portanto, segundo as palavras do seu secretário geral, de "um partido que abomina todas as formas de totalitarismo, a não ser que a tal nos obriguem!"
 
Partido Marítimo Português, PMP:
Defende a necessidade de Portugal recuperar a sua "gloriosa" epopeia marítima e a continuidade da sua expansão por "mares nunca dantes navegados".
Lançou há dias uma vasta campanha de recolha de fundos para a construção de caravelas e naus catrinetas.
 
Partido Unidade das Trabalhadoras Anarco-Sindicalistas, PUTAS:
Resultante da fusão do Partido Unido (PU), de tendência duvidosa,
com a agremiação sindical, Trabalhadoras Anarco-Sindicalistas (TAS), é constituído, presentemente, por um casal de proxenetas, fundador do PU, e uma dúzia de trabalhadoras anarco-sindicalistas que se juntou à iniciativa do casal, para formar um partido que se dedique exclusivamente à causa da "profissão mais antiga do mundo".
Como vêem, não faltam argumentos para outras opções de voto que não sejam escolher sempre os mesmos. Votem em consciência!
 

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JESUS TOPA-TE AO LONGE!

por João Castro e Brito, em 11.01.24

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E é de ginjeira, sabes? Não tens como Lhe escapar! Antes que penses em engendrar um esquema pra te baldares às tuas obrigações, já Ele tem antecipado a tua jogada! Ou tu pensas que o Homem anda distraído?! Ele é omnisciente, omnipresente, omnipotente e essas coisas todas, 'tás a ver, pá? Portanto, põe-te à tabela, pois não há buraco que te esconda; tens muitas contas a ajustar! Deves julgar que não tens telhados de vidro, queres lá ver?! Olha lá bem para o fundo do teu âmago! Não vale a pena andares a bater com as mãos no peito, à espera de um lugarzinho no Céu porque Ele já deixou de dar para esse peditório!
Toma lá juizinho porque ainda estás a tempo e a vida são dois dias e um deles já passou, hum? Vê lá, vê! Apressa-te!

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ÁLCOOL AO VOLANTE

por João Castro e Brito, em 10.01.24

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"Segundo o Código da Estrada, é proibido conduzir sob influência de álcool ou de substâncias psicotrópicas.
De acordo com a legislação, isto corresponde a uma taxa de álcool no sangue igual ou superior a 0,5 g/l."
Ao que parece – corrijam-me se estiver errado porque eu de volumetria pesco zero, mesmo sabendo que o álcool é um "reagente" – , esta taxa de alcoolemia equivale ao volume de uma garrafa contendo 7,5 dl de vinho tinto de 16 graus ou a um copo com 2 dl de bagaço.
Convenhamos que tudo isto é muito vago, como facilmente inferiram...
E quanto à cerveja, ao uísque, ao gin, à ginjinha, ao brandy, ao leite, à água e a todas as restantes bebidas?
Afinal, como é? Como é que uma pessoa que conduz um veículo automóvel pode saber se o seu nível de alcoolemia infringe a Lei ou não, se não existem tabelas de equivalência entre as várias bebidas que a possam orientar?
Seria fácil se existisse essa tabela, n'é verdade? Nem era necessário andar com um papel sempre à mão de semear, pois bastava descarregá-la para o telemóvel, por exemplo. Ou, até, colá-la no lugar do selo do seguro do carro que já deixou de estar à vista no pára-brisas. Apenas por uma questão de controlo, só para a gente não se esquecer.
Pelas minhas contas – contas de merceeiro, confesso – , beber o tal copo de 2 dl de bagaço, corresponde, a grosso modo, à ingestão de 10 l de leite meio-gordo; 25 hl de Sumol (passe a publicidade); 100 kl de água; 35 frascos de tornesol e 0,5 dl de álcool a 90 graus. Isto, tomando (no sentido restrito) estes líquidos como referência para o efeito.
Sabendo que se atinge o referido limite, consumindo 7,5 dl de vinho tinto ou 2 dl de aguardente vínica, bastava consultar uma tabela de equivalências para ficarmos a saber que seria o mesmo que beber, por exemplo, 25 hl de Sumol (passe a publicidade) mais 10,5 frascos de tornesol ou 10 l de leite meio-gordo e uma colher de sopa de álcool a 90 graus. Porém, como um copo com 2 dl de bagaço equivale mais ou menos a 10 canecas de 0,5 l – ressalvo que estas contas ou estimativas dependem muito da massa corporal de quem consome estes líquidos – , bastará que beba meia garrafa de vinho tinto e o conteúdo de uma dúzia de frascos de tornesol para cair sob a alçada da Lei ou, na hipótese mais acerba, para cair e nunca mais se levantar.
Embora não exista, por enquanto, a tal tabela, e a gente sabe que faz muita falta, não deixe de relevar a minha tese, pela saúde do seu fígado.
Vá por mim que sou barbeiro!

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O ANJO CAÍDO

por João Castro e Brito, em 17.12.23

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Não tinha faltado nada na mesa. Aliás, muito bem composta, é preciso dizê-lo.
Para além da tradicional refeição da consoada e demais iguarias com que todos se haviam regalado, sobrara a natural impaciência pelo soar das doze badaladas da meia noite.
Abrir as prendas que o Menino Jesus lhes tinha deixado no sapatinho, junto à lareira, ia ser o culminar de todas as expectativas. Satisfeitas ou não, era o que se ia constatar após a décima segunda badalada.
As crianças eram as mais impacientes, como era de esperar, na circunstância, pois estavam ansiosas por saber se o Menino Jesus tinha atendido aos seus pedidos.
Subitamente, ouviu-se um som estrondoso vindo da cozinha e, simultaneamente, um leve cheiro a algo queimado, mas bastante aromático.
Contudo, não se tratou de um distúrbio sensorial isolado porque, tanto o estrépido como o cheiro, foram sentidos por todos; inclusive pelos avós que há muito tinham perdido as faculdades auditiva e olfática.
«É o Menino Jesus, é o Menino Jesus!» – gritaram os miúdos, excitados.
«N'é nada, ainda é muito cedo!» – ripostou o pai.
Levantaram-se à pressa dos seus lugares e acorreram à cozinha para ver o que tinha acontecido.
Qual não foi o espanto geral ao depararem-se com um anjo, aparentemente prostrado, com as asas machucadas e fumegantes que, meio tímido, mas muito cortês, se identificou como sendo um anjo da guarda que passava por ali quando um problema numa das asas o forçou a fazer uma aterragem de emergência.
Feitas as apresentações, desfez-se em desculpas e prometeu que ia ressarcir a família pelos prejuízos causados por aquele infeliz contratempo.
Moral da estória: Já não se fazem anjos da guarda como antigamente, é o que é!
Agora, a sério: tenho um costume que mantenho desde pequenino que é agradecer ao meu anjo da guarda por me safar de situações menos boas. É claro que ele não está sempre presente e entendo isso como uma enorme dificuldade em resolver vários casos de aflição ao mesmo tempo.
Penso que não é tarefa fácil, nem mesmo para um anjo da guarda, como deverá depreender.
Divaguei outra vez, peço desculpa.
Agora, a talhe de foice: se você aí, eventual leitor ou leitora, gostar muito de anjos da guarda, veja ou reveja este filme sobre qualquer pretexto!
Boas festas, se for o seu caso, e se assim for, já é suficiente pra me deixar contente.

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UM CONTO DO VIGÁRIO

por João Castro e Brito, em 12.12.23

 

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Havia adormecido no confessionário, enquanto a boa da Natércia dos Prazeres insistia em pedir perdão pelo pecado da carne, cometido de segunda a segunda, a que se dedicava com o canastrão do sineiro, aliás paraplégico da cintura para cima, o que não tinha qualquer relevância porque o sino deixara de tocar há muito tempo por falta do badalo. Por outro lado, só o facto do sineiro ser paraplégico da cintura para cima já era, segundo o ponto de vista da boa da Natércia dos Prazeres, um milagre de Deus.
De repente, ouviu chamar por ele. Depois, um alarido. E uma voz distinta: "é ele, eu bem o pressenti, é ele...está lá dentro!"
Como não pronunciaram "ele(1)" com letra maiúscula, percebeu que não era Ele, mas o outro.
Saiu do confessionário, pôs um ar fero, avançou para a sacristia, de onde provinha o alvoroço, e notou imediatamente, pelo cheiro intenso a enxofre, que o diabo, o próprio, estava perto.
"Deixem-me passar!" – ordenou imperioso, mas, aparentemente, aborrecido por lhe terem interrompido a sesta. Forçou a porta da sacristia, entrou e encarou o mafarrico que, a custo, chispava fumo e dava ares de não poder com uma gata pelo rabo de cobra sagitada. Bastou-lhe um olhar fugaz para constatar que o pobre diabo estava, realmente, nas lonas.
"Que diabo, estou fartinho de te dizer para não vires, cá, acima dentro das horas de expediente...olha bem para esse buraco que fizeste!..." – interpelou-o.
"Queira Vossa Vigarice desculpar-me, mas a merda do elevador está a precisar de manutenção e acabou-se o cabrão do gás! Q'é que Vossência queria que eu fizesse? Milagres, só no Céu!
Ademais, os pecadores e as pecadoras estão à fresca e começam a pensar que aquilo é a praia do Paraíso, caraças! – justificou-se, a deitar os bofes pela boca.
"Ó diabo, era o que me faltava agora! Eu aqui a ameaçá-los com as chamas eternas e tu, lá em baixo, a dares-lhes banhos de mar...leva já duas botijas para as primeiras impressões...raspa-te! E proibo-te, terminantemente, de praguejares na casa do Senhor!
Ajudou-o a carregar com elas até ao buraco, e preparava-se o demo para recolher ao inferno, quando se lembrou de lhe perguntar: "E enxofre"? Ainda tens muito?"
"Já está abaixo da reserva, saiba Vossa Vigarice!..."
"Deus te valha, meu diabrete!..." – murmurou sem querer, enquanto abria uma arca para retirar vinte e cinco quilos de enxofre em pó que o maligno agradeceu, empenhadamente.
Ele que sempre foi um defensor do diálogo com o inimigo, tapou o buraco com cuidado, aspergiu o local com água-benta, abriu a porta, comunicou aos crentes que estava tudo controlado e regressou à quietude do confessionário, onde, entretanto, a boa da Natércia dos Prazeres não se havia apercebido da sua ausência e continuava empenhada em pedir perdão pelas suas "confrontações" com o sineiro, da cintura para baixo.

in UM CONTO DO VIGÁRIO porque, efectivamente, é uma obra só com um conto e quem escreve um conto, a mais não é obrigado, como dizia alguém, não sei quem.

(1) "Ele" (com maiúscula), na tradição judaico-cristã, é o anjo rebelde (Satanás), que foi expulso do Céu e desceu ao Inferno. No entanto, atribuí-lhe o estatuto de uma entidade menor, nesta estória. Meu caro Lúcifer, queira aceitar, desde já, as minhas mais sinceras desculpas.

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DESCUBRA AS 837 DIFERENÇAS

por João Castro e Brito, em 24.07.23

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837 diferenças, subtis, fazem com que estas duas gravuras, aparentemente iguais, difiram quase de modo imperceptível. Cabe-lhe assinalá-las, com um bocadinho de paciência e olho vivo – naturalmente – , desenhando um pequeno círculo em torno delas que, como acabei de dizer, são muito ténues. Para as descobrir, também confio na sua perspicácia.
Como é hábito, em passatempos deste tipo, não se deve atribuir grande relevo a deficiências devidas à má qualidade das imagens. No entanto, pode-se socorrer de uns óculos com lentes mais grossas ou de uns binóculos. Todavia, queira aceitar, desde já, o meu mais sincero pedido de desculpa se, mesmo assim, isso continuar a dificultar-lhe a capacidade de observação dos pormenores mais diminutos.
Dica: aconselho que ache as 837 diferenças depois de um opíparo almoço.

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O ROCK PORTUGUÊS

por João Castro e Brito, em 24.07.23

O rock português tinha vindo para abanar o atoleiro em que se encontrava a cultura musical nacional. Estava-se no início da década de 1980 do século passado e esta expressão musical de origem anglo-saxónica (EUA) iria sofrer um impulso, nunca dantes visto nem tampouco imaginado, com a emergência de novas bandas e êxitos assegurados. Os UHF, por exemplo, lançavam um "78 rotações", ao vivo, com o título genérico "Roteiro de Lisboa". Esse LP (acrónimo de long-playing), incluía títulos sugestivos como "Rua do Carmo"; "Rua da Trindade"; "Rua dos prazeres" e "Rua das Necessidades". Já para não mencionar outro grande êxito surgido, mais ou menos, nessa altura, "Carapau de Corrida" que não fazia parte deste álbum e que seria editado num single de "45 rotações".
Os Taxi...quem não se lembra dos Taxi, santo Deus?! Eu era tão novinho e tão lindo..."puxa, vida", agora sou um canastrão! Desculpem lá este devaneio saudosista.
Mas, como ia a dizer, os Taxi aumentaram a tarifa e tiveram alguma dificuldade em editar um tema que, afinal, se tornaria num êxito de permanência no top de vendas da discográfica Valentim de Marvalho: refiro-me, evidentemente, ao "Rebuçado de Mentol" que, ao contrário da "Chiklet", não se agarrava às próteses dentárias.
Ainda, no campo dos consagrados, Rui Beloso lançaria um tema que ainda hoje trauteio quando estou debaixo do chuveiro: "Sai um café e um bagaço para a mesa do Xico Fininho!".
O chamado rock português, instalava-se, definitivamente, no nosso meio musical que andava pelas ruas da amargura no que concernia à mediocridade geral do que cá se produzia. Já imaginou o que era escutar na rádio o António Calvário a cantar "O Amor desceu em paraquedas"? Experimente ir ao YouTube e depois diga qualquer coisa, ok?
Curiosamente, meia dúzia de cantores e músicos da época, vendo que estavam a perder protagonismo, tentaram entrar na nova onda rock. Então, em 1982, formava-se uma banda chamada "RockPimba", com Marco Paulo nas teclas, Rui Guedes na bateria, José Malhoa na viola-baixo, Gaby Cardoso na viola-ritmo, Emanuel na viola-solo e Ágata na voz. Foi um sucesso estrondoso no meio sociocultural do género. Um dos temas da banda, "Eu tenho dois tractores", com música e letra do Marco Paulo, continua a ser tocado em festas de casamentos, batizados e romarias.
Pela mesma altura, António Vitorino de Almeira, recém regressado de Viena do Castelo, onde foi adido cultural, lançava um desafio público ao então Ministro dos Negócios Estrangeiros, André Gonçalves Pereira, convidando-o para formar um trio, ao estilo dos Emerson, Lake & Palmer, que, no caso vertente se chamaria Almeida, Pereira & Sousa – Marcelo Rebelo de, seria o baterista. Acrescente-se que, de Sousa, não recusaria uma proposta tão irrecusável. Ele tocaria em todos os tambores necessários, até que alguém o ouvisse, e o certo é que uma grande maioria de ouvintes continua a escutá-lo atentamente...

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