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A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

A TORTO E A DIREITO

Pretendo que seja um blogue cheio de estórias rutilantes, ainda que às vezes embaciadas. No entanto, sagazes e transparentes, embora com reservas e alguma indecência à mistura. Todavia, honesto.

27.11.21

CASOS JUDICIAIS IMPROVÁVEIS


João Brito

o carteirista.jpg

Baseado no romance homónimo de Robert Burnier, vá-se lá saber porquê, "O Carteirista" (Pickpocket, para inglês ver) narra a estória atribulada de dois corruptos que se cruzam algumas vezes, um no papel de corruptor e outro no papel de corrompido (não confundir com cu rompido, não obstante serem palavras homófonas).
Como em todas as estórias que metem corruptores e corrompidos, há quem os considere boas pessoas e, às vezes, até vítimas de suposições infundadas, torpeza ou das circunstâncias.
Bem diz o povo, e muito sabiamente, que "a ocasião faz o corrupto", ou "corrupto que rouba a corrupto tem cem anos de perdão (não rimam, mas que se lixe)". Estes aforismos acabam por ter alguma lógica; quando mais não seja, aforística.
Outros anseiam vê-los na cadeia durante muito tempo, mas, enfim, é como tudo, pá (não confundir com "eu como tudo, pá!" em alentejano ou algarvio)!
A obra é uma abordagem centrada, em primeiro lugar, num caso de absolvição sui generis, dado que só se conheceu o seu desfecho após um longo processo que se arrastou durante mais de trinta anos, com tudo o que isso pesa, em termos de ansiedade e incerteza, para os infelizes agentes delituosos e respectivas famílias.
Uma das personagens e, de certo modo, o sujeito fulcral da obra, é um indivíduo de aparência cuidada, ar inocente e um "bon vivant". O seu nome é Artur Salgado Inocêncio, carteirista de profissão e corrupto nas horas vagas.
Este ex-provável meliante, de presumível ascendência dolicocéfala por parte do pai e mística por parte da mãe, protagoniza o autor confesso de um violento crime de assalto à mão desarmada efectuado numa manhã remota de 4 de Fevereiro, cujo ano foi omitido de forma inexorável e sem qualquer explicação do autor, mas, do mal o menos, "é só fazer as contas".
O referido assalto havia sido perpetrado na estação de metro da Rotunda (actual Marquês de Pombal), na pessoa de uma senhora idosa, com cerca de noventa e sete anos, que se aprontava para entrar numa carruagem com destino a Alvalade. Desse ferino e despropositado crime (a mala da velhinha continha apenas um lencinho de mão com ranho seco, algumas moedas de tostão dispersas, uma nota de vinte paus muito amarrotada, um terço e dois preservativos por estrear) resultaram ferimentos graves na pobre anciã, a qual foi prontamente socorrida por populares que imediatamente ligaram para o 115 (na altura ainda não existia o 112 nem o 808242424) que, sem perder tempo, deslocou uma ambulância para o local, três horas depois.
De pouco serviu a prontidão do 115, pois a senhora jamais recuperou das pisaduras de que foi alvo, até hoje, encontrando-se, por consequência, em estado de coma induzido a seu pedido.
Durante a fase de julgamento, a defesa, astuta como convém, apresentou uma dúzia de testemunhas, sendo que nenhuma delas se lembrou do que tinha feito no dia anterior, quando mais no longínquo dia 4 de Fevereiro.
A acusação bem insistiu no sentido das ditas tentarem avivar a memória, mas foi em vão, nicles de bitocles; bateu o pé, rabujou, chamou nomes, mas daquelas bocas não saiu fosse o que fosse, tampouco, uma vogalzinha, ou uma consoante, nada de nada.
A defesa pediu que fosse declarada a inefabilidade crono-jurídica (penso que esta palavra composta não existe, mas que se lixe) do momento e a acusação pediu baixa devido a uma crise de rinite alérgica do Delegado do Ministério Público. Contudo, o pedido foi indeferido para não adiar o julgamento sine die.
Foi requisitada, sem demora, a presença de um Subdelegado do Ministério Público, mas como tardava a substituição do Delegado pelo Subdelegado, por este último se encontrar a banhos nas Ilhas Seychelles (não confundir com a Ilha Seixal e muito menos com município do Seixal), o colectivo requereu a presença de um Inspector Adjunto Principal, da Inspecção-Geral, em serviço na Subdelegação; só para desenrascar.
O meritíssimo Juiz da comarca, Doutor Honoris Aadhunik Chandrachur, de nítida ascendência escocesa, não só absolveu o réu desse crime hediondo, como ainda confessou que tinha sérias dúvidas sobre a ocorrência do assalto, no dia em causa, porque podia ter-se dado um dia antes ou um dia depois. Para além disso, o douto e respeitável juiz reconheceu que Artur Salgado Inocêncio tinha transmitido até ali provas inequívocas de honestidade e, acima de tudo, de modéstia à parte e, por isso, dignas de reconhecimento.
E, ao concluir o acórdão, obviamente com o acordo de todos e a abstenção da acusação, salientou: «Vá para casa e livre-se de praticar assaltos em dias de feriado, homem! Para mais, sendo o dia 4 de Fevereiro; por amor da Santa!» - sublinhando que trabalhar em dias santos era crime passível de julgamento e, no máximo, repreensão agravada com recurso de agravo (Decreto Lei nº 169/17, Artigo 25º), rematando que desta vez deixava passar, realçando que era uma vez sem exemplo.
No mesmo processo: "Operação Mão de Vaca", como vem referido, a páginas tantas, nesta excelente criação imaginária, temos, então, outro corrupto, um falsário, personagem de índole duvidosa, como todos os falsários, chamado Joaquim Sócras da Silva, sobre o qual recaíam fortes suspeitas de crimes de peculato e falsificação de notas de mil escudos. O sujeito havia sido condenado preventivamente a prisão domiciliária numa conhecida hospedaria de Évora e só fora libertado depois de caucionar o pagamento de uma bica e um bagaço a uma juíza e um garoto ao oficial de justiça. Tudo isto em consequência de fortes indícios do seu envolvimento em outros ilícitos para além dos previstos na lei (há aqui uma incoerência, peço desculpa). As suspeitas eram tão evidentes que ele próprio - passe a redundância - , em dado momento, chegou a pensar, embora não o dissesse, que os cometera.
Os seus advogados entenderam que a pena era acrónica e, por esse facto, inadmissível, injusta e desprestigiante para o alto gabarito e honestidade do seu constituinte; sobretudo, uma enorme afronta contra a sua honra.
O suspeito, ao tomar conhecimento do recurso, teve um breve momento de desalento e, embora fosse agnóstico, exclamou: «Valha-me Deus, onde é que isto vai parar? Porque é que estão todos contra mim?»
Quase no epílogo da estória e resumindo toda a acção deste drama narrativo, pois já estou com uma calanzice do caraças, lê-se a tantas outras páginas que o processo da "Operação Mão de Vaca" foi arquivado, embora a senhora idosa continue em estado de coma induzido. Porém, foi imediatamente reaberto outro com o nome "Operação Grão de Bico", por suspeita de arquivamento, mais a mais em arquivo morto, de pedidos sucessivos de inquérito, formal e atempadamente formulados pelo Ministério Público.
Parece que esse tal Inspector Adjunto Principal da Inspecção Geral, veio agora alegar, apesar de alguma hesitação, mas querendo mostrar serviço, ao que parece, que afinal o suposto meliante pode estar implicado em vários atropelamentos de bicicleta, devido à utilização mal calculada do método do esticão para sacar objectos, nomeadamente malas de senhora. Bom, mas estas suspeitas ainda estão por confirmar.
E pronto, não escrevo mais porque isto, hoje, correu-me mal pra caraças!

26.11.21

ESTÓRIA URBANA


João Brito

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Durante a permanência de um denso manto de nevoeiro sobre a cidade, daquele tipo de nevoeiro que não deixa vislumbrar um palmo à frente do nariz, ocorreu um fenómeno que ainda hoje o perturba, conquanto o sol já se erguesse alto e caldo.
Um desembargador reformado e viúvo, de nome Ezequiel Cipriano Canário, morador na Travessa do Pelourinho, Nº15, rés-do-chão Dtº, ao virar a leitaria da esquina à Lapa, de quem me reservo o direito de manter no anonimato para preservar a sua privacidade, deambulava ali para os lados do Jardim da Estrela, quando ouviu uma voz feminina murmurar "és tu, Sotero?". Sem conseguir identificar a sua proveniência, sentiu um gelo súbito percorrer-lhe a medula espinhal, acompanhado de tremura intensa na perna (era perneta). De tal modo que não a conseguia dominar e as gotículas que lhe afloraram os poros das regiões frontal, occipital e parietal depressa congelaram, embora a temperatura à sombra rondasse os trinta graus. Apesar do enorme temor e tremor que sentiu com o estranho episódio, não se pôs a cismar naquilo e concentrou a atenção no que se estava a passar, não muito distante do local onde se encontrava; talvez a uns três metros, se tanto:
Tendo apurado melhor o nariz, embora precisasse mais de óculos e não obstante o nevoeiro já se ter desvanecido, divisou um grupo de pessoas em passo solene e a toque de caixa, o qual lhe pareceu ser da Irmandade dos Fiéis de São Bento, pela ladainha que o vulto da frente vinha a invocar ao Santo. Porém, tal suposição não se confirmou quando passaram perto do seu curto campo de visão.
O cortejo era encabeçado pelo padre Américo, acompahado por um rancho de gaiatos, o que o deixou algo pasmado, pois julgou tratar-se de uma visão fantasmagórica. Uma associação defensora dos direitos das passarinhas enjauladas, cujas representantes desfilavam nuas da cintura para baixo, fechava a comitiva bizarra.
Visivelmente perturbado, mas sem dar nas vistas, esperou que passassem, não fosse o acontecimento uma visão ilusória e até alegórica (porque não?) do outro mundo.
Depois de ter presenciado a cena (em boa verdade, bastante paranormal) e ainda mal refeito do que acabara de testemunhar, saiu do esconderijo e percorreu o caminho pisado por aquelas personagens insólitas. Por lá encontrou vários objectos, entre os quais dois bacios de fina porcelana portuguesa, Bellavista, um em estilo rococó e outro em estilo richichi, uma chávena chinesa, efectivamente made by RPC, com um restinho de chá, ainda fumegante, duas celas do melhor couro andaluz, um par de botas de montar, em calfe, ambas do pé esquerdo, uns óculos de Sol Honório Hernani aparentemente novos, um lencinho de assoar, vermelho, debruado com fiozinhos de oiro a preceito e a exalar um suave perfume a água das rosas e, finalmente, excrementos de equídeo, o que achou muito estranho, pois não vira cavalos, tampouco éguas, muito menos burros. Todavia, podem ter sido mulas ou machos que passaram despercebidos, vá-se lá saber. Presumindo que tudo aquilo já se encontrava ali antes da passagem do cortejo, excepto um pauzinho de gelado Olá (passe a publicidade) que guardou religiosamente, regressou a casa cheio de inquietude e, simultaneamente, excitação desusada pelo achado.
«Repara como o nevoeiro nos reserva surpresas interessantes» – disse à falecida, exibindo triunfalmente para o vazio o pauzinho de gelado.

26.11.21

SOPA DE LETRINHAS


João Brito

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Heitor era doido por sopa de letrinhas.
Desde menino que tinha esta obsessão gastronómica que herdara de seu tio Arlindo, conhecido industrial de alimentos e um indefectível da sopinha de massa.
Muito antes de conhecer o alfabeto fonético, paradoxalmente, já arranhava muito bem o grego, interessando-se, em particular, pelo chamado período clássico, onde Heródoto de Halicarnasso, por exemplo, lhe despertava um apetite voraz por rosbife.
Perante um cenário tão promitente é fácil conjecturar ou até especular - passe a redundância - que se deve ter tornado, surpreendentemente ou, quiçá, sei lá, num potencial literato emergente. A tal ponto que é consabido que dominava precocemente conhecimentos avançados de estudos literários à distância.
Todavia, sempre recusou sopa de tomate e manjericão; abominou a de abóbora e declarou guerra às sopas de pevides e estrelinhas, por muito inverosímil que nos pareça.
Na fase da adolescência, aquele período muito parvo e inconsciente, cheio de sangue na guelra e espinha no dorso, quando os fedelhos se escamam por tudo e por nada, ele era diferente; comia sempre num enorme prato de sopa "Cerâmica de Valadares" - passe a publicidade - que ele, nestas coisas, era muito esquisito, benzesse-o Deus Nosso Senhor.
Era nas bordas do prato que ensaiava prosa cacográfica com as letrinhas da sopa. Também tinha aquela intuição, só acessível aos seres eleitos, de que a leitura e a escrita criativa prejudicavam seriamente a ignorância e, por isso, insistia na sua ordenação perfeita de modo a formar, pelo menos, frases lacónicas; e a mais não era obrigado, pois já fazia muito para além da sua aptidão inata.
Heitor faleceu há dias, com tanto ainda para dar, mas a vida é mesmo assim: feita de imponderáveis, por muito que nos tentem convencer de que o destino marca a hora...
O relatório da autópsia não podia ter sido, bem a propósito, mais conciso: utilização excessiva de palavras parónimas com acento tónico na primeira sílaba como, por exemplo, átono e átomo ou na segunda como apóstrofe e apóstrofo.

Quanto ao Acácio, há muito que emudeceu. Saturado de contar mentiras e semear mexericos a torto e a direito, a boca resolveu pregar-lhe uma partida, fugindo-lhe para a verdade. Tantas vezes vai o cântaro à fonte, é o que é! Ainda esboçou a tentativa de a perseguir, mas debalde (não confundir com de balde); era impossível! Desta vez a boca correu mais célere do que o boato.
Escusado será dizer que, para recuperar a fala, Acácio aguarda que alguém, por caridade, lhe mande a boca.

A Arlete, ao passar por uma montra da Rua Garrett (leia-se o trissílabo garréte), viu exposta uma linda jaqueta de pele com a qual sempre sonhara. Olhou-a através da vitrina, de todos os ângulos que as suas trinta dioptrias permitiam, e ficou fascinada.
Em casa, comentou isso com o esposo:
«Hoje, estive vai-não-vai para comprar uma jaqueta de pele, daquelas que tu nem calculas! Só não a comprei porque me ia custar os óculos da cara!»
«Graças a Deus que tiveste o bom senso de não os teres deixado lá, filha! Era muito desagradável voltares a usar olhos!»

Já o Sargento Ramires, estava de folga a curtir música rock. Um pouquinho juvenil, um tudo-nada rebelde, mas, mesmo assim, um nadinha ruidosa. Contudo, nada marcial, coisíssima alguma uma brigada, tampouco regimento, batalhão ou pelotão. Assim, o Sargento Ramires tomou uma decisão inalienável, indiscutível e exclusiva: pediu a carta patente de oficial subalterno depois de passar à reserva territorial.
Heitor, Acácio, Arlete e Ramires, quatro casos pessoais, quatro exemplos de desprendimento; quatro lições de altruísmo, dedicação e abnegação. Sobretudo, quatro estórias paradigmáticas.

23.11.21

A PILINHA E O PIPI


João Brito

poema ao morgado.jpg

Antes de prosseguir a narrativa, convém referir que o tema não sendo novo também não é velho por aí além (no caso, aquém), n'é? Contudo, estou ciente de que é susceptível de provocar alguma celeuma, como é natural. Isto, não obstante a educação sexual fazer parte do programa oficial de ensino desde tempos imemoriais. Nesse sentido, penso que o controlo parental é dispensável; até porque as crianças de hoje já não são as crianças de ontem (bela frase) e, partindo desta premissa, não as devemos aborrecer com falsos moralismos.
Por conseguinte, este texto pode ser lido em família e sem qualquer tipo de impedimento.
Depois desta curtíssima introdução, vou passar, então, à descrição taxinómica dos órgãos em epígrafe:
Ora, imediatamente, surgem os primeiros obstáculos. Isto porque existem órgãos externos e internos. Todavia, quando se mencionam, pensa-se, invariavelmente, nos que estão à vista desarmada, embora estejam ordinariamente tapados. No que concerne aos nomes que lhes atribuímos, são tantos que não sabemos por que ponta lhes devemos pegar. Desde torneirinha, pilinha, pirilau e piloca nos meninos, até pipi, rosinha, pombinha e rolinha nas meninas.
É claro que existem outras designações menos simpáticas que me recuso a transcrever por uma questão de decência e porque são sobejamente conhecidas do público em geral e do púbico em particular, não esquecendo o púdico, evidentemente.
Tudo o que a nossa imaginação permitir, poder-se-á assemelhar aos órgãos sexuais, sei lá, uma simples esferográfica, ou a cratera de um vulcão, sofás, lava-loiças, despensas, sanitas, banheiras, enfim, uma infinidade de coisas que não caberiam aqui. Portanto, e antes que este texto degenere, vou passar à frente.
Como descrever seriamente, e de uma forma geral, os órgãos sexuais? Uma questão sempre difícil para a perspectiva analítica do anatomista, dado que o acessório está inevitavelmente inserido na percepção do sujeito. Efectivamente, são órgãos que merecem descrições particulares. No caso dos órgãos sexuais masculinos as coisas podem atingir vários aspectos, conforme as circunstâncias. Por exemplo, em condições excepcionais, podemos considerá-los como órgãos extraordinariamente versáteis, capazes de assumir diversos feitios. Julgo que é suficiente para se ter uma compreensão abrangente da sua dissimilitude em relação a outros órgãos com menos visibilidade postural, mas não com menos apostura. Como no género feminino, em que os órgãos externos são diferentes e cuja atitude é mais subtil ou menos explícita – passe a redundância – como já devem ter presumido ou tido a oportunidade de constatar.
Depois da descrição ao pormenor, tratemos do tema da sua utilização ou seja, para que servem? Outra questão delicada. Peço desculpa àquelas pessoas mais recatadas, pela exposição dos órgãos de uma forma um bocadinho despudorada, mas, para simplificar a explicação vou designá-los por pilinha e pipi para não provocar muitos melindres.
Então é assim: A pilinha, se observarem bem (as pessoas obesas podem socorrer-se do vulgar espelho), está situada, mais ou menos, a um palmo abaixo do umbigo e serve para fazer chichi e perpetuar a espécie, segundo o conceito de um ex-deputado do CDS, João Morgado. O pipi é quase a mesma coisa, com uma ou outra nuance (mais uma vez, as pessoas obesas podem socorrer-se do espelho).
A pilinha e o pipi, quando estão pelos ajustes, são porreiros um para o outro. Toda a gente se lembra daquela quadra muito bonita que aprendeu nos primeiros aninhos de escola e que reza assim: A pilinha e o pipi, são dois amigos leais / quando o pipi está contente / logo a pilinha dá sinais. Lembra, certamente, claro!
E pronto, penso que, quanto à anatomia, descrição, classificação e utilização dos órgãos sexuais, mais haveria a dizer; o assunto não se esgota aqui, nomeadamente em relação ao sexo, mas, como sou oriundo de uma família de convicções e rituais profundamente religiosos, constrange-me falar abertamente sobre este tema sempre polémico. É que falar de sexo, oralmente, já é difícil; fará por escrito!
Isto é muito sério, como certamente devem ter-se apercebido. "Com o sexo não se brinca!" – já dizia a minha avó com a sabedoria que lhe era peculiar – , mas se não podemos brincar com o sexo, brincamos com o quê? Ora, bolas!

P.S: A talhe de foice, eis a resposta ao Morgado, da grande poetisa Natália Correia, antiga deputada parlamentar do PSD. Resposta relacionada com o facto de o sujeito ter dito, numa sessão do parlamento, em 1982, que "(...)o acto sexual é para se ver o nascimento de um filho":

Truca-Truca

Já que o coito – diz Morgado –
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão – diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado. 

17.11.21

PEDRO E INÊS: UMA ESTÓRIA DE FACA E ALGUIDAR


João Brito

pedro e inês.jpg

Peço encarecidamente desculpa aos hipotéticos leitores e leitoras, mas tinha de regressar a um tema que me fascina sobremaneira que – presumiram bem – é História de Portugal, isso mesmo! Assim, sem mais delongas, vou debruçar-me, desta vez, sobre uma das histórias de amor mais lindas e mais pungentes do reino de Portugal, dos Algarves e "se mais mundo houvera lá chegara" - parafraseando o meu estimado amigo Luís Vaz. Prossigamos, então:
Inês foi aia e Pedro foi rei. Para quem não está ao facto, isto, de facto, foi um facto. Logo, tivemos mais um caldo entornado na nossa História ou um caldinho como é comum dizer-se. Tanto que se consumou e tragicamente se consumiu.
Conta esta estória que, nas galerias sombrias do Paço, Pedro cruzava-se, nessora, já lusco-fusco e amiúde, com Inês, ali, a dois passos, e reparava que os seus olhos eram lindos e de uma luminescência esfuziante. Para não dizer dos ombros que eram tão alvos e tão cândidos que davam para encher o olho (mais adiante, explico a razão porque davam para encher o olho). De tal modo que, cada vez que se viam, Pedro sentia uma vontade desmedida de lhe deitar a alça do vestido abaixo.
Permitam-me, aqui, uma pequena digressão: Segundo estudos efectuados muito recentemente, está comprovado, por portas e travessas, que os reis eram uns licenciosos do piorio (não confundir com licenciados porque, salvo honrosas excepções, eram uns bestuntos analfabetos), capazes dos piores desregramentos, pondo em causa o pundonor da monarquia. É claro que estes hábitos ancestrais não constituem novidade para quem está a par das marotices da nobreza de antanho. No entanto, é só mais uma achega para tentar desmistificar a falsa noção que as pessoas têm acerca da superioridade moral da aristocracia de outrora. Felizmente que a fidalguia, agora, tem maneiras! Honras lhe prestem porque fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia, como disse alguém, cujo nome já se me varreu. Prossigamos:
Certa noite de luar (como sabem, o luar nada mais é do que a luz do Sol reflectida pela Lua), a aia devaneava, doce, lânguida, derramando uma lagrimazinha de crocodilo, quiçá pelas cebolas do Egipto, entre frondosos arbustos, aprumando o busto, inalando a fragrância que vinha do Mondego ou talvez do Alva, quando Pedro, arrastando o manto, coçando o mento, exalando menta e avivando a mente, se encontrou com ela, cara a cara e de caras, pintaram a manta.
O calor da noite (ou entusiasmo), a brisa branda do Dão, o aroma das benefes, a distância dos olhares pudibundos e furibundos dos cortesãos e cortesãs, fez com que os dois amantes inacabados percebessem que era chegado o tempo de dirimir aquela indefinição do amor.
Sem perderem tempo, submeteram-se, segundo a própria vontade, aos ímpetos lúbricos da carne, como convinha e, claro, a bronca estalou: toda a corte ficou a saber que o rei estava metido numa grande alhada por via de uma bela plebeia, pois embrulhara-se nas saias de uma, pondo em perigo os costumes, usos e abusos da realeza.
Vou sintetizar um pouco mais isto porque não me está a correr nada bem...
A troco de uma mão-cheia de Dobras, três magalas horrentes, coniventes e sem dentes, apanharam Inês, lavando no rio, desacautelada, semi-nua, semi-inconsciente das intenções maliciosas dos conspiradores, defensores da nata e, com a frieza inata dos estripadores, vararam-na...
Pedro uivou que nem um lobo, espumou de raiva que nem um cão, berrou que nem um bode e jurou vindicta.
Cavalgou por todo o reino e além fronteiras, conforme tinha aprendido no livro de Bem Cavalgar Toda Sela, vasculhou as comarcas, as dinamarcas, perscrutou as marcas, as peugadas, os rastos, os indícios, os vestígios, os sinais, enviou emissários, comissários, mercenários e, por fim, caçou os sanguinários.
Os assassinos a soldo foram sumariamente presentes ao Rei que os esventrou, sem mais aquela, perante uma multidão exaltada, aficionada e sedenta de sangue e arena.
Ao primeiro extraiu-lhe o fígado pelas costas e fê-lo em iscas. Ao segundo, sacou-lhe o coração pelo peito e, tendo-o desfeito, jogou-o aos cães; a multidão ululava de prazer mórbido e gritava "olé!". O terceiro jamais apareceu, mas foi excomungado, exonerado e expulso das Forças Armadas, sem direito a qualquer estipêndio ou subsídio.
Depois, com uma lágrima ao canto do olho, dado que era zarolho, Pedro sentou o corpo jacente e arrefecido de Inês numa poltrona e prometeu punição aos poltrões. A fidalguia contrita, temendo o castigo régio, comia tremoços e pevides e enganava a inquietude torcendo as orelhas.
Um a um, em fila do pirilau (fila indiana), vieram beijar as mãozinhas frias de Inês que lhes retribuía com um sorriso de morte ...
Esta estória não se esgota aqui, como constatam pelas reticências. Todavia, deixo o seu desfecho ao juízo da vossa imaginação ou à leitura atenta do último romance de Joaquim da Silva Reboredo: "O Amor Infinito de Pedro e Inês", Edições Maozinhas de Veludo.pt.
Uma coisa é certa: Não casaram nem tiveram filhos, tampouco foram felizes para sempre. Também nunca brincaram às escondidas ou à apanhada, mas amaram-se perdidamente até ao fim.
Passados séculos, ainda se escuta o restolhar dos seus corpos quando se passa junto ao túmulo, no Mosteiro de Alcobaça.
Nota final: Mais uma vez quero pedir desculpa ao professor José Mattoso pela minha falta de rigor histórico e, por conseguinte, elevada ignorância. Muito obrigado e bem haja!

14.11.21

DIÁLOGO ENTRE COLBERT E MAZARINO


João Brito

colbert e mazarino1.jpg

Colbert: «Para encontrar dinheiro, há um momento em que já não é praticável enganar seja quem for.
Senhor Superintendente, gostaria que me explicasse como é que é possível continuar a gastar tanto, quando já nos empenhámos até ao pescoço?!...»
Mazarino: «Bom, então, passo a explicar:
Se estivermos a falar de um miserável Zé ninguém coberto de dívidas, e não tendo como as pagar, é óbvio que vai preso. Mas o Estado..., bem..., o Estado é diferente! Não se pode mandar prender o Estado que diabo! A solução natural para o problema é continuar a acumular dívidas... Todos os Estados o fazem, não somos excepção, Colbert!»
Colbert: «Ah sim? É essa a sua convicção, então? No entanto, continuamos a precisar de dinheiro. Como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?»
Mazarino: «Criando outros com designações incompreensíveis para a população ignara. Dada a sua complexidade, presumirão que são vitais para combater a falta de liquidez das finanças do reino e, naturalmente, a manutenção do seu estatuto de pobreza e, por consequência, iliteracia»
Colbert: «Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres. Sujeitamo-nos a uma insurreição popular!»
Mazarino: «Realmente tens razão, também pensei nessa possibilidade!»
Colbert: «Bem, sobram os ricos!»
Mazarino: «Os ricos também não, nem ouses tal pensamento! Deixariam de gastar ou pior ainda: tratariam de transferir a totalidade das suas fortunas para reinos onde não fossem taxadas! Um rico que gasta faz viver centenas de pobres, não esqueças!»
Colbert: «Então onde vamos arranjar dinheiro?»
Mazarino: «Ai, Colbert, comes muito queijo, homem de Deus! A coisa processa-se da seguinte forma: há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham, com o sonho de um dia se tornarem ricos e com um medo insuportável de ficarem pobres. É a esses que devemos sobrecarregar com impostos atrás de impostos, cada vez mais, sempre mais, percebes?! Esses, quanto mais lhes tirarmos, mais se esfalfarão a trabalhar para compensarem o que lhes tirámos. São uma reserva inesgotável!»

As personagens são reais, o diálogo é fictício ( adaptação livre da peça teatral Le Diable Rouge, de Antoine Rault. Circula por aí...), mas pode-se reportar aos tempos actuais, como facilmente se depreende nesta magnífica rábula...
“Jean-Baptiste Colbert (Reims, 29 de Agosto de 1619 — Paris, 6 de Setembro de 1683) foi um político francês que ficou conhecido como ministro de Estado e da economia do rei Luís XIV. Instalou o Colbertismo na França, onde teve uma grande importância no desenvolvimento do mercantilismo ou da teoria mercantilista (com adeptos fervorosos em Portugal), bem como das práticas de intervenção estatal na economia, que o mercantilismo advogava.
Em 1651, Michel Le Telier, apresenta-o ao Cardeal Mazarino que o contrata para gerir a sua vasta fortuna pessoal. Antes de morrer, em 1661, Mazarino recomendou Colbert ao rei Luís XIV de França, salientando as suas qualidades de dedicado trabalhador. Nesse mesmo ano o rei fez de Colbert ministro de Estado e, em 1664, atribui-lhe o cargo de superintendente das construções, artes e manufacturas e ainda o de intendente das Finanças.” - Wikipédia

14.11.21

RICOS E POBRES: A ETERNA DICOTOMIA


João Brito

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Dizia aquela senhora, ainda no tempo em que foi directora do FMI, que era necessário "partilhar o crescimento". Dizia-o no final de uma cimeira dos países mais ricos do mundo. Segundo ela, os líderes desses países haviam concordado em identificar e dar prioridade às reformas que são essenciais para aumentar o estímulo do crescimento de cada país, área em que a organização que dirigia, supostamente, actua. Reforçava a ideia com a importância que deve ser dada à "partilha alargada dos recursos e do conhecimento"...
Ora, como estamos habituados a discursos de circunstância, já não estranhámos mais este. É do senso comum que, sem as ferramentas que reduzam as desigualdades e aumentem, assim, as perspectivas económicas, nomeadamente dos grupos de mais baixos recursos e com poucas qualificações – os primeiros a serem afectados com as mudanças tecnológicas – , o fosso entre ricos e pobres aumenta inevitavelmente. Palavras, portanto...
A propósito desta assimetria e a fazer fé nas estatísticas, a concentração de riqueza continua imparável, mesmo em tempo de pandemia. Direi que até a reforçou, nomeadamente, no lóbi farmacêutico que, como se sabe, é muito poderoso. Segundo o meu entendimento, é um grupo que não quer abdicar do avaro acúmulo de abastança. Ademais, sabendo-se que há países, cuja população ainda não está vacinada...

É claro que há formas de combater as desigualdades, mas pergunto: alguém está interessado em fazê-lo? Alguém continua empenhado, por exemplo, em combater a fuga à tributação de fortunas incalculáveis, mesmo vivendo-se uma das maiores crises pandémicas de todos os tempos?
E Portugal, onde alguns pensavam (se calhar, vivendo uma realidade virtual) que o número de pobres tinha diminuído, contrastando com os relatórios da OCDE que contrapunha como permanecendo entre os países mais desiguais e com maiores níveis de pobreza consistente? 
Para compor o ramalhete, mudaram, também, todas as perspectivas e espectativas a um ritmo extraordinário e violento, devidas a esta nova peste que continua a assolar o mundo, e ninguém sabe muito bem como vai ser daqui para a frente.
Porém, mantenho a profunda convicção de que o cenário social vai-se agravar e, pela ordem de "prioridade", o eterno lixado é o mexilhão.

13.11.21

MITOS BÍBLICOS


João Brito

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Naquela manhã, Abraão acordou o filho muito cedinho:
«Levanta-te Isaac, temos de abalar, já, meu filho!»
«Mas..., paizinho, nem ao menos uma torradita e um leitito de burra?!»
«Anda! Levo aqui pãnito, azeitonitas e um queijito de Serpa, vá, comemos pelo caminho, despacha-te!»
«Paizinho, não leva uma garrafita de vinhito?»
«Bebes aguinha do Ardila e já vais com sorte, mê menino!»
Chegados ao local indicado pelo mensageiro do Senhor, nos sonhos de Abraão, ali pintaram a manta... perdão, estenderam a manta e despacharam o resto da merenda.
Isaac estava impaciente para adorar e sacrificar fosse o que fosse:
«Paizinho, quando é que a gente vai adorar e sacrificar?»
«Tem lá calma! Tudo tem a sua hora que diabo! Ai..., perdoai-me, Senhor, porque invoquei Lúcifer, esse capeta dum cabrão!»
Passado algum tempo e estando Isaac a dormir uma soneca à sombra de uma azinheira, o pai aproveita a oportunidade, salta-lhe em cima, dá-lhe uma cachaporrada no toutiço, amordaça-o, amarra-o à árvore e posta-se de alerta à espera que o moço acorde:
«Q'a porra vem a ser esta, paizinho, só pode 'tar a mangar?! Até pareço um enchido de Estremoz!»
«Está escrito, meu filho! E tu não m'arranjes mais cargas de fezes q'aquelas que já tenho; olha q'ainda levas uma lamparina! Vá; não podemos contrariar as escrituras!»
Abraão pôs-se a jeito para desferir um golpe de cutelo no seu indefeso filho:
«Desinfectou isso, ao menos? Pode-se apanhar o tétano, paizinho!»
Abraão não teve tempo de responder. Um enorme e repentino rugido, vindo dos céus, acompanhado de vento e poeira, acabara de anunciar a presença de um anjo do Senhor:
«Oiça lá, ó seu grandessíssimo Abraão, então você, sua besta quadrada que não tem outro nome, confundiu o seu rapaz com um borrego, seu tira moncos, seu..., seu ratecégo, seu tombaque? Vá lá judiar com o raio que o parta, seu alarve! Arre porra que você não vale um chocalho d'erva, catano! Não sabe que é aquele bicho que tem de imolar? Para a próxima vai de raboleta para o inferno, 'tá ouvindo?»
O pobre e assustado ancião virou-se e viu ali, escarrapachado, um carneiro escanzelado, vindo, sabe Deus d'onde. Mataram-no e Abraão fez um ensopado dentro das circunstâncias que, tudo leva a crer, não devem ter sido as melhores. A carne saiu um bocadito dura, mas, pelo menos, o anjo chamou-lhe um figo e comeu que nem um bruto.
Cheio e farto – passe a redundância – , agarrou nos quatro arrátes, com muita dificuldade, e desapareceu por entre as nuvens.
Com tanta emoção junta, pai e filho ficaram sem fome. Abraão até se esquecera das suas dores nos artelhos, própria da sua provecta idade.
O Isaac, coitadinho, é que não se lembrava de ter apanhado um escalda rabos tão grande. O importante é que não ficaram derramados com o episódio que, graças a Deus, foi resolvido sem infortúnio.
Todavia, isto ficou fortemente guardado na alembradura de ambos, de tal modo que, mais de 2000 anos depois, é repetidamente recordado pelas alminhas lá daquele monte que não vou identificar q'é p'ra não ficarem raladas dentro dos caixões. Nã é que se importem, agora, muito, mas, naquela altura, a coisa podia ter dado para o torto e seria uma grande moidera, n'acham? E termino esta estória sem talho nem maravalho, não sem esclarecer, finalmente, que as personagens e o contexto histórico e geográfico são fictícios como, certamete, entenderam, n'é verdade?
E, a talhe de foice, alguém me disse que a expressão "sem talho nem maravalho" é um dito algarvio. Aqui fica o meu reparo e pedido de desculpa pelo abuso, obrigado.

12.11.21

O MITO DO PNEU FURADO


João Brito

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Hoje, apetece-me escrever um tanto sobre o eterno e, no entanto, sempre aliciante mito do pneu furado, visto que, parece-me, ainda ninguém teve a coragem de se debruçar sobre um tema tão estimulante como este. Pelo menos, numa perspectiva epistemológica.
Começo por me questionar se será o mito do pneu furado, um mito. Sim, será, efectivamente, um mito ou será apenas o reflexo perceptível de uma mitologia idealizada que nos transporta para um plano diferenciador em que se procura, tão só, mistificar a questão (não confundir com mitificar)? Esta é a pergunta angustiante que me faço, desde que acordo até que adormeço e que, obviamente, me deixa sem resposta e porquê? - perguntam os eventuais leitores e leitoras com toda a legitimidade. Porque é uma pergunta, necessariamente, redutora e, como tal, vai fazer com que nos interroguemos, até ficarmos esgotados, acerca do mito do pneu furado ou, porventura, da sua  inevitável mitoclastia.
Ao introduzir a câmara de ar no pneu furado, não pretendo menosprezar o papel cada vez mais preponderante, direi mesmo determinante, do pneu "tuboless", mas unicamente procurar fazer uma análise mais profunda - comportamental, se quiserem, face à realidade objectiva do "pneu furado", à luz da teoria psicanalítica, tão do agrado de Segismundo Freud que, como é consabido, dormiu com uma câmara-de-ar entalada na virilha até ao último suspiro, hábito que adquiriu desde pequenino.
Vemos, então, desfilar perante nós, num ecrã gnosiológico, a relação complexa entre o pneu furado e o útero materno, sem esquecer a tese do macaco hidráulico como substituto da autoridade paterna. E aqui enfatizo o clássico regresso à boleia, do ponto de vista da sublimação, et cetera.
Podemos, então, identificar o mito do pneu furado, partindo do pressuposto de que o mito é um mito tão antigo como a ideia do pecado original. Todavia, sem fugir ao tema fulcral da questão primordial, procurei dar-lhe a elevação espiritual e introduzir-lhe o enquadramento exotérico que muitos lhe negam, vendo mesmo na forma do pneu furado, um símbolo de redenção cósmica. Afinal, nos antípodas do pensamento materialista, segundo o qual e por consequência: "se o pneu está furado, muda-se!"

10.11.21

AS AMÊIJOAS


João Brito

Mito ou realidade? É difícil destrinçá-los, pois nem tudo o que reluz é ouro; ou nem tudo o que parece é; ou nem tudo o que vem à rede é peixe e por aí adiante.
É claro que é uma tarefa pessoal e arbitrária porque depende da tua vontade (desculpa lá estar a falar na segunda pessoa, pá, já pareço o JJ, valha-me Deus!) e capacidade de descobrir.
Depois disto tudo, e não é pouco (só para não repetir, desnecessariamente, "preâmbulo"), passo a contar uma estória fabulosa porque é de uma fábula que se trata:
Há muito, muito tempo (não confundir com aquela música do José Cid: Vem Viver a Vida, Amor), existiu uma sociedade de bivalves "bué" inteligente. Curiosamente, andavam todos descascados. Eram lesmas...perdão, resmas deles - se me permitem a vulgaridade do termo - e de todas as espécies. Contudo, hoje, vou debruçar-me quase exclusivamente sobre as amêijoas. Elas eram, de tal modo, em tão grande quantidade que formavam uma espécie de monte cujo cume se perdia nos contérminos do céu. O que, para aquela época, era um feito quase babilónico, diga-se em abono da verdade!
Ora, como não tinham casca (concha), era um regalo para a vista de qualquer observador vê-las escorregar sobre si, desde lá de cima até cá abaixo, com volúpia e grande prazer - passe o pleonasmo.
Depois, como eram muito descascadas e escaroladas, estavam-se nas tintas para as críticas das ameijoas cascas-grossas do costume. Isto, por andarem muito saídas das cascas, apesar de terem vindo ao mundo desprovidas delas.
Os mais atrevidotes eram os mexilhões, não obstante subsistir aquela ideia pré-concebida de que quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão. Nada mais falso do que isso porque eles eram, mesmo, uns mexilhões das dúzias!
Para além de serem de uma inteligência rara em moluscos bivalves, sabiam tudo na ponta da língua.
Por incrível que pareça, as amêijoas tinham muita ponta na língua. Agora até botam a língua de fora e cospem para o ar, imagine-se! Como os tempos estão tão mudados! É fruto dos tempos em que já não há respeitinho nenhum, é o que é! Todavia devo acentuar, embora sem acento, que tenho muito respeitinho pelo respeito, mas nenhum pelo respeitinho...
Adiante, senão disperso-me.
Então, como ia dizendo se não tivesse divagado um pouco, as amêijoas, para quem desconhece os seus hábitos ancestrais, comunicavam entre si por telepatia. Já nesses tempos recuados em que o homem não passava de um antropomorfo néscio (imaginem hoje!).
Por conseguinte e por consequência (passe a redundância), eram bestialmente evoluídas. Tampouco necessitavam de ir à escola, pois transmitiam umas às outras todo o conhecimento contido no cérebro que, a despeito de ser minúsculo, era muito comprimido. Daí terem a necessidade frequente de tomar aspirina para as enxaquecas.
À luz dos conhecimentos actuais, estudos exaustivos comprovaram que as amêijoas tinham, efectivamente, cérebro. Mas, como referi no parágrafo anterior, isso trazia-lhes efeitos indesejáveis, o que era uma maçada.
Como resultado da informação que partilhavam, todas sabiam o mesmo, ou seja: não havia a competição desenfreada que existe nos nossos dias. Aliás, se isso acontecesse, não tenho dúvida de que as relações entre elas seriam de cortar à faca e mais: como eram desprovidas de conchas, muitas teriam levado com facadas nas costas.
Por outro lado, não havia a chatice dos trabalhos de casa, uma seca do caraças que, hoje em dia, só serve para atrofiar as crianças. Assim, viviam cheias de alegria e felicidade porque tudo lhes caía do céu, como se costuma dizer.
Por exemplo, para comer bastava-lhes abrir a boca e deitar a língua de fora. O que já era um grande avanço para aquele tempo; e, é claro, sobrava-lhes muito tempo para a ociosidade. Por isso, andavam descascadas para se entregarem ao prazer dos sentidos (devo sublinhar que, ao utilizar a expressão eufemística "prazer dos sentidos", foi para evitar a referência directa ao prazer do sexo, por uma questão de bom senso e, claro, de decoro.), parece que únicos porque ainda não tinham sido inventadas a televisão, a Internet e outras formas recreativas para compensar a indiligência. Essas inovações surgiram muito mais tarde (século XVIII, pouco, mais, ou menos).
É claro que não há sociedades perfeitas; esta foi, talvez, a maior aproximação que se fez a esse tipo de civilização. Por essa razão, ou sem qualquer razão, esta espécie civilizada também tinha os seus extractos sociais: havia as amêijoas muito grandes e muito gordas, havia as vieiras que eram uma classe à parte, muito privilegiada, a qual dependia muito dos favores que prestava às amêijoas grandes e gordas, digamos assim. Havia o berbigão, o burrié, o mexilhão, as lapas, as ostras, estas últimas votadas ao ostracismo, desconhecendo-se, ainda hoje, as razões que fundamentaram essa entrega. E, é claro, havia outros bivalves que agora não recordo. Ah, esquecia-me de mencionar o marisco Eusébio: esse ocupava o último lugar na hierarquia social desta, ainda assim, admirável civilização de moluscos.
Um dia, uma amêijoa grande e gorda que por tal condição exercia funções executivas na hierarquia do estado, escoltada por um séquito de correligionárias, irritou-se sem motivo aparente e, inexplicavelmente, deu-lhe para embirrar com todos os bivalves...melhor dizendo: somente com as amêijoas mais pequeninas e outras classes de moluscos insignificantes, no que foi seguida, zelosamente, pelas outras.
Nessas circunstâncias extraordinárias, dado que tinham deixado de ser ordinárias, evidentemente, emergiu, inevitavelmente, uma paladina das amêijoas oprimidas. Depois emergiram outras e mais outras. Vai daí, a coisa gerou uma ameijoada de proporções preocupantes para a classe dominante. Urgia reforçar a segurança, conferir-lhe "poder discricionário".
Nas hostes proletárias impunha-se inventar qualquer coisa revolucionária que pusesse termo à opressão de que eram alvo por parte das amêijoas grandes e gordas, pois a indignação não parava de crescer de dia para dia. E, à medida que a exaltação subia de tom, começaram a surgir facções e, com elas, espíritos, até ali, inexistentes: luta de classes, revanchismo e afins. Assim, a sociedade das amêijoas dividia-se entre as que apoiavam a classe autoritária e as que apoiavam a liberal. Elas não sabiam, mas a história revelou-nos que a discórdia só viria a beneficiar as amêijoas grandes e gordas (dividir para reinar).
Assim, de desavença em desavença, de desforra em desforra, de olho por olho e de dente por dente (a expressão "dente por dente", neste contexto, é uma figura de estilo), descobriram o mal. Com o advento desta triste realidade, para apaziguar ou acicatar as almas, neste último caso para as tornar mais ferinas, tiveram necessidade de inventar os deuses.
Resumindo e baralhando isto, pois estou quase a chegar ao epílogo e já sinto as ideias trocadas, as amêijoas foram-se adulterando (não confundir com adultério que é uma coisa muito carnal) ao longo dos séculos até aos nossos dias.
As amêijoas, levadas pela sua neurastenia, entregaram-se a um processo de introversão: já não queriam saber das suas semelhantes, não queriam ouvir falar de discussões, de problemas chatos, como a fome, a guerra, as doenças, a exclusão social e os programas de entretenimento das televisões generalistas.
Ainda, a propósito de neurastenia, penso, com alguma margem de erro, que as amêijoas sempre foram muito neurasténicas. Contudo, não me perguntem porquê porque não sei, não sei mesmo!
Assim, chegaram a um ponto em que se desabituaram de procurar saber o que as outras pensavam (ainda se lembram que elas comunicavam entre si através da telepatia, certo?).
Cimeira após cimeira, na tentativa de reverter a situação, com grupos de trabalho, comissões, almoços e jantares, poses para a fotografia e sorrisos de circunstância, tudo isso não foi suficiente para travar o processo que se adivinhava há muito tempo: começaram a fechar-se dentro de si (diz-se, até, que aprenderam com as ostras) e, desse modo, inventaram a concha. Por enquanto não se sabe se apareceu primeiro a amêijoa, ou a concha, mas estou convicto de que, com os actuais métodos de estudo, não demorará muito a saber-se.
Após esta importante descoberta, as amêijoas têm andado pouco saídas da casca e, devido a este facto insofismável, houve um retrocesso civilizacional brutal na sociedade dos bivalves, coisa nunca vista nem imaginada. Presentemente, calcula-se que algumas nem chegam a sair. É a pura verdade!
Post scriptum: A talhe de foice, deixo-vos uma dica: Antes de cozinharem bivalves, verifiquem se estão bem fechados. Os que permanecerem fechados, depois de cozinhados, não devem ser consumidos. Sei que vocês sabem, mas nunca é demais relembrar. Abraços e beijinhos.